krysalis88
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Al-KINDI
Polímata
Polímata
Abū Yūsuf Ya'qūb ibn Isḥāq al-Kindi (c. 801–873) ou Al-Kindi, conhecido em latim como Alkindus, foi o primeiro verdadeiro polímata da Era da Ignorância. Reconhecido como o “Primeiro Filósofo dos Árabes”, fez contribuições originais em várias áreas do saber, incluindo filosofia, matemática, medicina, ótica, astronomia, criptografia e teoria musical. Uma das suas realizações mais notáveis foi a difusão do uso dos numerais indianos, de que continuamos a beneficiar atualmente.
Ele escreveu centenas de tratados, muitos dos quais introduziram e desenvolveram o conhecimento científico e filosófico no mundo islâmico. Estes escritos viriam mais tarde a exercer grande influência na Europa medieval. Além disso, foi também um importante teólogo do seu tempo, prestando assistência pessoal aos califas na Casa da
Sabedoria, o principal centro de conhecimento de Bagdade. As suas reflexões filosóficas sobre as obras de Platão e Aristóteles acabariam por lhe causar sérios problemas no final da vida, levando-o à acusação de apostasia e ao consequente ostracismo por parte da sociedade que tanto havia enriquecido.
PRIMEIROS ANOS DA VIDA
Al-Kindi nasceu na tribo árabe dos Kinda, originária do sul da Arábia, mas estabelecida no atual território do Iraque havia já muitas gerações. Ao longo do Império Abássida, a sua família prosperou enormemente graças ao lucrativo comércio de escravos na região vizinha de Basra, e o seu pai chegou a ser um dos principais governadores de Cufa. Durante a adolescência, Al-Kindi recebeu instrução na língua grega.
Posteriormente, estudou em importantes instituições educativas de Bagdade, onde chamou a atenção dos califas pela sua perspicácia e habilidade em realizar traduções fiéis e coerentes de obras gregas. O califa Al Ma’mun nomeou-o, algum tempo depois, supervisor da Casa da Sabedoria, encarregando-o da coordenação das traduções dos textos gregos.
CASA DA SABEDORIA
A obra filosófica de Al-Kindi lançou as bases da tradição filosófica árabe. Foi uma figura crucial na divulgação da filosofia grega na língua do Império. Como líder da Casa da Sabedoria de Bagdade, patrocinou a tradução de textos antigos e foi responsável por cunhar grande parte do vocabulário filosófico em árabe. Os seus próprios escritos abrangem áreas como a lógica, a ética, a teologia e a metafísica.
Uma das suas obras mais importantes, Sobre a Primeira Filosofia, constitui a mais antiga metafísica sistemática escrita em árabe. Nela, Al-Kindi procurou sintetizar as ideias neoplatónicas e aristotélicas numa visão metafísica unificada. Defendeu a existência de um único Criador eterno, negando contudo a eternidade do cosmos, numa tentativa de conciliar a filosofia grega com os princípios do Islão. No centro da sua metafísica está o conceito de Deus como o “Verdadeiro Uno”, absolutamente singular e incomparável — uma posição tão rigorosa que se aproxima de uma teologia negativa (segundo a qual não se podem atribuir qualidades comuns a Deus).
Al-Kindi concebeu também a ideia da alma como uma entidade imaterial e substancial distinta do corpo, em oposição às visões materialistas predominantes na sua época. Essa explicação representava uma abordagem inovadora do conceito de alma no contexto contemporâneo, em consonância com as tradições platónicas.
Primeira página de Sobre a Decifração de Mensagens Criptográficas
Metodologicamente, Al-Kindi procurou harmonizar a filosofia com a religião. Sustentava que a verdade devia ser aceite independentemente da sua origem e afirmou, de forma célebre, que ninguém deveria envergonhar-se de adquirir a verdade de povos estrangeiros, pois “nada é mais valioso do que a verdade”.
Ele via a filosofia como um complemento da revelação divina: servindo-se das ferramentas da razão para aprofundar a compreensão dos princípios sagrados. Ao fazê-lo, aperfeiçoou as práticas anteriores ao integrar o racionalismo grego no pensamento islâmico, fornecendo explicações sistemáticas e racionais para questões teológicas como a criação, a profecia e os atributos de Deus, sem, no entanto, mencionar diretamente os seus predecessores gregos ou muçulmanos. O seu legado filosófico consistiu em inaugurar a falsafa (a tradição peripatética de Aristóteles) no mundo árabe, o que lhe valeu o título de “Pai da Filosofia Árabe”.
Contudo, Al-Kindi elaborou e traduziu partes significativas de obras que acabariam por lhe granjear acusações de heresia e colocá-lo em perigo por causa das suas posições teológicas, em particular as que traduziu de Plotino e que, por engano, considerou serem textos fundamentais de Aristóteles. As rivalidades na Casa da Sabedoria agravaram ainda mais a sua situação. O califa Al-Mutawakkil, conhecido pelo seu fanatismo religioso, enviou agentes da polícia secreta para o agredir e pilhar a sua biblioteca. Al-Kindi tornou-se, gradualmente, uma figura marginal e solitária, e a sua filosofia caiu em relativa obscuridade face à dos seus sucessores, com grande parte da sua obra a ser eliminada ou censurada por autoridades islâmicas.
Foi também por esta altura que o Império Abássida entrou no período da chamada Anarquia de Samarra, mergulhando rapidamente em declínio. A Rebelião Zanj — protagonizada por até um milhão de escravos negros das plantações, apoiados por várias tribos árabes marginalizadas — eclodiu pouco depois, lançando o Império num ciclo de conflitos e fragmentação sem fim.
MATEMÁTICA
Na área da matemática, Al-Kindi revelou-se notavelmente inovador e desempenhou um papel fundamental na difusão dos numerais e conceitos matemáticos indianos a um público mais vasto. Escreveu pelo menos quatro volumes sobre o sistema numérico hindu (Kitāb fī Isti‘māl al-A‘dād al-Hindiyyah, “Sobre o Uso dos Numerais Hindus”), que contribuíram de forma decisiva para a adoção desses numerais no Médio Oriente e, mais tarde, na Europa. Ao demonstrar a eficiência do sistema indiano — baseado no valor posicional e no uso do zero —, os seus trabalhos aperfeiçoaram as práticas anteriores e abriram caminho para a aritmética moderna no Ocidente latino.
Os escritos matemáticos de Al-Kindi foram vastos e diversificados. Abordou temas como a aritmética, a geometria, a proporcionalidade e a análise numérica. Por exemplo, redigiu textos sobre a “harmonia dos números”, as quantidades relativas e os algoritmos de cancelamento, entre outros assuntos, revelando um profundo entendimento da teoria dos números e das técnicas algébricas. No campo da geometria, dedicou-se a questões como a teoria das paralelas, demonstrando o seu envolvimento com a obra de Euclides. Aplicou ainda princípios geométricos à resolução de problemas de ótica e astronomia, recorrendo frequentemente a diagramas matemáticos para sustentar as suas teorias.
ASTRONOMIA
Al-Kindi fez contribuições significativas para a astronomia e a cosmologia, frequentemente em estreita ligação com a astrologia. Aceitou e desenvolveu o modelo ptolomaico do cosmos. Nos seus escritos cosmológicos, descrevia os corpos celestes como seres racionais que obedecem à vontade de Deus — os seus movimentos circulares perfeitos eram interpretados como atos de adoração e instrumentos da providência divina. Al-Kindi apresentou argumentos empíricos a favor das influências celestes; observou, por exemplo, que as mudanças das estações se correlacionam com as posições do Sol e dos planetas, e chegou até a sugerir que as características físicas dos povos variam conforme o clima astronómico da sua região. Esse tipo de raciocínio demonstrava um esforço em fundamentar a astrologia na observação e na filosofia natural.
O filósofo árabe escreveu numerosos tratados astrológicos, frequentemente com finalidades práticas, como a aplicação da Astrologia Horária para responder a questões concretas, e a utilização da técnica de Decumbiture para prever morte ou recuperação. Entre os seus títulos mais notáveis contam-se O Livro do Julgamento das Estrelas (um compêndio sobre a leitura de horóscopos, também conhecido como Liber iudiciorum astrorum), Sobre a Mudança do Clima (De mutatione temporum, um estudo meteorológico), Sobre os Eclipses, e Sobre os Sinais da Astronomia Aplicados à Medicina (De Signis Astronomiae ad Medicinam). Partindo de princípios místicos, Al-Kindi propôs ainda um sistema baseado nas fases da Lua para antecipar os dias críticos na doença de um paciente, combinando assim observação com cálculo.
Nestas obras, desenvolveu a Astrologia Babilónica e Helenística anterior através de uma análise mais sistemática e da tentativa de oferecer explicações naturais para os efeitos astrológicos. Escreveu, por exemplo, um tratado sobre as marés, no qual explicava a influência lunar por meio do aquecimento e arrefecimento da água (uma das primeiras tentativas de formular uma teoria das marés). A forma como Al-Kindi combinou astronomia, observação empírica e física representou um avanço notável na aproximação da astrologia a uma ciência. Muitos dos seus textos astrológicos foram traduzidos para latim e amplamente divulgados. Já no Renascimento, o seu De Iudiciis Astrorum foi impresso em Veneza, testemunhando a sua influência duradoura na astrologia europeia. A sua ideia de que os raios celestes transmitem forças teve um impacto particularmente relevante na Europa, influenciando mais tarde teorias medievais de ótica e de magia astral (nomeadamente nos pensamentos de Roger Bacon e Marsilio Ficino).
ÓTICA
Al-Kindi contribuiu para a ótica e procurou revitalizar essa ciência. É, de facto, reconhecido como o primeiro grande autor a tratar da teoria ótica após a Antiguidade. Baseando-se nas obras de Euclides e de Ptolomeu, escreveu um tratado de ótica conhecido em latim como De Aspectibus (“Sobre as Visões” ou Ótica). Nesta obra, Al-Kindi analisou de forma rigorosa o modo como ocorre a visão, bem como a natureza da luz e da cor.
Considerou e comparou duas teorias gregas predominantes acerca da visão: a teoria da “intromissão” de Aristóteles, segundo a qual o olho recebe as formas através de um meio impregnado de luz; e a teoria da “extramissão” de Euclides, de acordo com a qual o olho emite raios visuais em linhas retas. A análise de Al-Kindi era de natureza geométrica, e ele acabou por favorecer os argumentos de Euclides. Observou que a explicação aristotélica falhava em fenómenos de perspetiva — como o facto de um objeto circular parecer elíptico quando observado de um ângulo — e também não explicava a visão noturna.
Embora muitas das suas observações não fossem totalmente corretas, compreendeu aspetos essenciais da propagação retilínea dos raios luminosos e da natureza da visão noturna, tentando colmatar as lacunas da teoria de Aristóteles. A investigação ótica de Al-Kindi representou um avanço em relação ao conhecimento anterior ao introduzir o conceito de que os raios de luz transportam força física — uma ideia que estabelecia uma ponte entre a geometria pura e a física, mas que também refletia a sua vertente meditativa e filosófica.
MEDICINA
Como médico, Al-Kindi dedicou grande parte da sua atenção à medicina, em especial à farmacologia. Escreveu mais de vinte tratados médicos, sendo o mais célebre De Gradibus (“Sobre os Graus”), que representa uma tentativa pioneira de quantificar a medicina. Nesta obra, Al-Kindi abordou um problema prático fundamental: como determinar a potência de medicamentos compostos e as dosagens adequadas.
A medicina galénica descrevia os fármacos como sendo quentes, frios, húmidos ou secos em quatro graus, mas tratava-se de uma escala puramente qualitativa. Al-Kindi transformou-a numa escala quantitativa ao criar um método matemático para medir a força dos medicamentos. Partindo do pressuposto de que cada “grau” sucessivo de uma qualidade duplica o efeito, desenvolveu cálculos para combinar os ingredientes corretamente.
Por exemplo, apresentou uma fórmula para determinar o grau de calor de uma mistura com base nas quantidades e nos graus inerentes dos seus componentes. Este método permitia ao médico prever matematicamente a eficácia de um remédio composto, tornando a dosagem mais precisa e previsível.
Segundo o historiador da medicina Plinio Prioreschi, o De Gradibus foi “a primeira tentativa de quantificação séria na medicina.”
A abordagem de Al-Kindi representou um grande avanço em relação às práticas anteriores ao introduzir precisão. Enquanto os médicos anteriores se baseavam sobretudo no julgamento qualitativo e na experiência empírica, Al-Kindi trouxe peso, medida e número para fundamentar as decisões médicas — um passo notável em direção aos métodos quantitativos e baseados em evidências que apenas muito mais tarde se tornariam padrão. Além disso, escreveu sobre vários temas específicos: elaborou um formulário farmacológico com listagens de plantas e minerais medicinais, um tratado sobre perfumes e, possivelmente, obras hoje perdidas sobre oftalmologia, revelando a amplitude do seu interesse médico.
Muitas das suas observações influenciaram posteriormente Al-Razi e outros médicos, incentivando o desenvolvimento da medicina numa direção futura.
MESTRE DA CRIPTOGRAFIA
Uma das realizações mais notáveis de Al-Kindi — largamente desconhecida na Europa até aos tempos modernos — foi a invenção da criptoanálise através da análise de frequências, o que representa, na prática, o nascimento da criptografia científica. No tratado intitulado Risāla fī Istikhrāj al-Mu‘ammā (“Sobre a Extração de Mensagens Ocultas”), conhecido em inglês como On Deciphering Cryptographic Messages, Al-Kindi apresentou a primeira explicação registada de como decifrar textos encriptados analisando as frequências das letras.
Essa obra, escrita por volta do ano 850, descreve de forma sistemática o método para atacar uma cifra de substituição. Al-Kindi explica que, ao dispor de uma mensagem cifrada e conhecendo a língua do texto original, deve comparar-se a frequência das letras cifradas com a frequência típica das letras dessa língua. Ele descreve a recolha de uma amostra suficientemente grande de texto comum, contando quantas vezes cada letra aparece (identificando as mais frequentes, as segundas mais comuns, e assim sucessivamente), para depois estabelecer uma correspondência entre as frequências dos símbolos cifrados e as das letras do texto original.
Substituindo o símbolo cifrado mais frequente pela letra mais usada, o segundo símbolo mais frequente pela segunda letra mais comum, e assim por diante, torna-se possível começar a revelar a mensagem. Este método é conhecido como análise de frequências, e a exposição de Al-Kindi constitui o exemplo mais antigo conhecido em todo o mundo.
Esta descoberta representou uma verdadeira inovação metodológica. Al-Kindi foi o primeiro a transformar a criptoanálise numa ciência baseada na estatística e na linguística. Chegou mesmo a discutir o uso de tentativas de decifração e de padrões prováveis de palavras para refinar a técnica, demonstrando uma compreensão extraordinariamente avançada.
TEORIA MUSICAL
Al-Kindi foi também um pioneiro da teoria musical. É reconhecido como o primeiro grande teórico da música no mundo islâmico cujos trabalhos chegaram até nós. Nos seus escritos musicais, Al-Kindi aplicou o raciocínio filosófico e matemático à arte do som, tal como fizeram Pitágoras e Aristóxeno na Grécia Antiga. Uma das suas principais contribuições foi a adaptação sistemática do sistema musical grego à tradição árabe. Transferiu o sistema grego de tetracordes para o alaúde árabe (ʿūd), introduzindo assim as convenções tonais gregas na teoria musical árabe.
Utilizava letras do alfabeto árabe para designar as notas, mas fornecia igualmente a correspondência com os nomes de notas gregas. Este método ajudou a estabelecer uma ponte entre o entendimento musical grego e o do Médio Oriente.
Acredita-se que Al-Kindi tenha acrescentado uma quinta corda ao ʿūd (alaúde) , alargando o seu alcance e ajustando a afinação para acomodar melhor as escalas teóricas. Essa inovação na construção de instrumentos demonstra o seu envolvimento prático com a música. Escreveu pelo menos quatro tratados sobre teoria musical, conhecidos pelos seus títulos e fragmentos: Sobre a Composição das Melodias, Sobre as Proporções Harmónicas (Modos) e Tons, Sobre as Partes da Música e um texto sobre a construção de instrumentos de corda (descrevendo instrumentos de uma a dez cordas).
Nestes trabalhos, Al-Kindi abordou a afinação do alaúde, a divisão da oitava e os efeitos cosmológicos e terapêuticos da música. Defendia, por exemplo, que a música exercia uma influência curativa sobre a alma e o corpo, ecoando a antiga ideia de que a música podia servir como remédio. Explorou também as relações entre os intervalos musicais e os corpos celestes, sugerindo uma espécie de “música das esferas”.
Estes desenvolvimentos baseavam-se nas suas experiências com o som e a vibração, frequentemente associadas ao ocultismo — sendo provável que parte do seu corpus filosófico estivesse relacionado com essas experiências.
Ao construir sobre a teoria musical grega e adaptá-la à música do seu tempo, Al-Kindi promoveu avanços significativos na prática musical do século IX. Até então, os músicos árabes seguiam sobretudo uma tradição oral; Al-Kindi contribuiu para a criação de uma estrutura teórica escrita que permitia preservar e transmitir o conhecimento musical de forma científica. Indiretamente, a sua fusão do pensamento musical helénico e árabe enriqueceu a história global da teoria da música.
Ao basear-se na teoria musical grega e adaptá-la à música do seu tempo, Al-Kindi fez progredir a prática musical do século IX. Os músicos árabes anteriores tinham uma tradição oral; Al-Kindi ajudou a criar uma estrutura teórica escrita para a música. Introduziu uma forma de notação musical e uma terminologia precisa, o que permitiu preservar e ensinar o conhecimento musical de forma científica. Indiretamente, a sua fusão do pensamento musical helénico e árabe enriqueceu a história global da teoria da música.
INFLUÊNCIA NA EUROPA
Embora tenha caído em relativa obscuridade após a sua perseguição, a influência intelectual de Al-Kindi estendeu-se muito para além do mundo árabe, sobretudo através do movimento de tradução do árabe para o latim ocorrido no século XII. Muitas das suas obras foram traduzidas para latim, permitindo que os estudiosos europeus tivessem acesso às suas ideias. Gerard de Cremona, um prolífico tradutor em Toledo, traduziu vários dos textos de Al-Kindi.
Registos históricos sugerem até que Gerard traduziu “quase todos os livros de... Al-Kindi” para latim, especialmente os relacionados com medicina, matemática e astronomia. Sabe-se, por exemplo, que o De Gradibus (sobre farmacologia) foi traduzido e estudado na Europa, e que Roger Bacon o conhecia — chegou a citar o método de dosagem de Al-Kindi. O tratado ótico De Aspectibus também estava disponível em latim e tornou-se uma fonte fundamental para a ciência ótica medieval.
Essa obra influenciou o trabalho de Robert Grosseteste, Roger Bacon e Witelo, que foram pioneiros da ótica na Europa do século XIII. Bacon, em particular, elogiou as contribuições de Al-Kindi para a ótica, classificando-o logo após Ptolomeu, e adotou a ideia de forças radiantes na sua própria análise da luz e da visão.
Na astronomia e na astrologia, os escritos de Al-Kindi encontraram um público recetivo entre os estudiosos latinos interessados em astrologia. Textos como De Iudiciis Astrologorum (Livro dos Julgamentos Astronómicos) e De Radiis circularam sob o seu nome latinizado, “Alkindus”.
Albertus Magnus e Tomás de Aquino referem “Alkindus” nas suas discussões sobre a causalidade astrológica, indicando que as suas ideias sobre raios e influências estelares eram debatidas nos círculos escolásticos. Um compêndio latino de prognósticos astrológicos, Liber novem iudicum in iudiciis astrorum (1509), foi impresso na Europa renascentista com o nome de Al-Kindi, demonstrando a reputação duradoura que manteve neste campo. Em matemática, a transmissão dos numerais indo-arábicos para a Europa — um desenvolvimento transformador — deveu algo à promoção desse sistema por Al-Kindi. Os tratados astrológicos de Guido Bonatti mostram nitidamente a sua influência.
Juntamente com as obras de Al-Khwarizmi, os tratados de Al-Kindi sobre cálculo numérico eram conhecidos dos tradutores; um texto latino sobre aritmética, Algorismus per Momem Alkindus, é-lhe atribuído em alguns manuscritos. Este material ajudou a preparar o terreno para a adoção europeia dos numerais indianos durante a Alta Idade Média.
Embora figuras posteriores e mais célebres, como Avicena e Averróis, frequentemente o tenham eclipsado, os estudiosos europeus dos séculos XII e XIII consideravam Alkindus uma autoridade. O seu nome surge em listas de sábios e em enciclopédias.
Por exemplo, Miguel Escoto, o erudito da corte de Frederico II, citou “Alkindi” em questões astrológicas no início do século XIII. Roger Bacon não só utilizou os estudos de Al-Kindi em ótica e medicina, como também o mencionou em ligação à alquimia e à ciência dos calendários (conhecendo bem a sua posição crítica em relação à alquimia). Através dessas referências, a influência de Al-Kindi foi-se difundindo pelas primeiras universidades europeias. Em suma, as traduções latinas das suas obras funcionaram como autênticos canais de transmissão do conhecimento.
O papel de Al-Kindi na história intelectual da Europa mostra que foi um verdadeiro precursor — um transmissor do saber greco-árabe que acrescentou ideias originais e ajudou a impulsionar as tradições escolástica e científica europeias.
BIBLIOGRAFIA
OUP Philosophy Blog – “Philosopher of the Month: al-Kindī”
Al-Kindi Writes the First Treatise on Cryptoanalysis, Stanford Encyclopedia of Philosophy
Al-Kindi, Peter Adamson