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Endovélico - Deus da Ibéria pré-Romano

AvatarHrodrik Avernus [SG]20 min to read

Endovélico

Cabeça de mármore atribuída a Endovélico. Fotografia de J. Pessoa, reproduzida em Die Idealköpfe des Endovellicus, p. 486, fig. 4a.

Endovélico é um Deus da cura, da proteção e dos oráculos, venerado na antiga Lusitânia e associado ao submundo. Os seus devotos procuravam-no para obter saúde, receber orientação e colocar-se, juntamente com as suas famílias, sob a sua proteção. Acreditavam na sua capacidade de comunicar através de visões e respostas divinas.

Foi uma das divindades locais cujo culto deixou mais testemunhos na Hispânia Romana. Em São Miguel da Mota, perto de Terena, no actual concelho do Alandroal, foram encontradas dezenas de esculturas e perto de uma centena de inscrições relacionadas com o seu santuário. A quantidade de oferendas mostra a importância que tinha para quem o venerava. Homens e mulheres, pessoas livres e escravos, famílias e membros das elites recorriam ao mesmo Deus.

Essa devoção podia durar várias gerações. As inscrições referem pedidos pelos filhos, compromissos herdados dos antepassados e dedicatórias voltadas para a posteridade. Endovélico era um protetor a quem se confiava o bem-estar da família e cuja ajuda se reconhecia através de promessas cumpridas, monumentos e imagens colocadas no santuário.

Um Deus próximo dos seus devotos

Os títulos atribuídos a Endovélico exprimem respeito e confiança no seu poder. Era chamado Deus sanctus, Deus sagrado ou venerável, e também dominus, senhor. Uma das dedicatórias descreve-o como praestantissimum et praesentissimum numen, exaltando a excelência do seu poder e a sua presença eficaz junto dos devotos.

Quem procurava Endovélico acreditava que podia ser ouvido e obter uma resposta. Endovélico dava indicações e intervinha na vida daqueles que recorriam a ele. As oferendas tornavam visível essa confiança.

O seu culto reunia pessoas de condições muito diferentes. Há dedicatórias de escravos, de trabalhadores e de membros da ordem equestre e até de soldados Romanos. As mulheres tiveram uma participação considerável: numa amostra estudada por Olivares Pedreño, cerca de um terço das inscrições com dedicante conhecido tinha sido promovido por mulheres. A presença das crianças, tanto nos pedidos como nas esculturas, reforça a importância da proteção familiar.

Algumas oferendas representavam um investimento elevado. Além das aras e das esculturas de mármore, uma inscrição menciona a dedicação de uma imagem de prata. A devoção também se exprimia na continuidade: um compromisso assumido pelos antepassados podia ser cumprido por um descendente, mantendo a família ligada ao Deus.

A saúde e a proteção da família

A cura era uma das funções atribuídas a Endovélico. As inscrições incluem pedidos pela saúde de familiares e dedicatórias feitas em seu benefício. O termo latino salus, utilizado neste contexto, abrangia saúde, segurança e bem-estar. A proteção do Deus podia ser procurada durante uma doença ou perante outras dificuldades que ameaçassem a vida da pessoa e da família.

Os votos estabeleciam compromissos com a divindade. O devoto fazia uma promessa e cumpria-a através de uma oferta, muitas vezes deixando uma inscrição. Algumas dedicatórias indicam que o gesto se seguia a uma resposta ou a uma ordem recebida do Deus. O monumento testemunhava, assim, a confiança na sua intervenção e o cumprimento da obrigação assumida.

Fragmento de árula com dedicação a Endovélico, encontrado na campanha de 2002. Novas investigações no santuário de Endovélico, p. 458, fig. 36.

A ligação à saúde levou Leite de Vasconcelos a comparar Endovélico com Asclépio dos Gregos. Os sonhos e as visões, associados ao seu culto, reforçavam essa aproximação. O Deus podia ajudar o devoto através da orientação que lhe transmitia. No entanto, mais tarde foi associado a Hades/Plutão pelas suas funções ctónicas.

O conhecimento e os oráculos

Endovélico era também um Deus oracular. Acreditava-se que podia responder a quem o consultava e manifestar a sua vontade através de visões e sonhos. Nas dedicatórias aparecem expressões como ex visu, por uma visão, ex responsu, em consequência de uma resposta, e iussu numinis, por ordem da divindade.

Essas fórmulas mostram que a comunicação com o Deus tinha um lugar central no culto. Os devotos procuravam orientação e reconheciam nas experiências recebidas uma indicação sobre o que deveriam fazer. A oferta podia ser o cumprimento dessa indicação.

É provável que algumas dessas experiências ocorressem através da incubatio, prática em que a pessoa dormia num espaço sagrado à espera de uma revelação. O sonho podia trazer uma resposta, uma advertência ou uma indicação relacionada com a saúde. Era um meio de procurar contacto com a divindade, conhecido também noutros cultos antigos.

No caso de Endovélico, as inscrições sustentam a existência de visões e respostas. Os pormenores dos ritos permanecem menos conhecidos. Não sabemos exatamente como se preparavam os devotos, onde dormiam ou em que medida dependiam de sacerdotes para interpretar a experiência.

O poder das profundezas

Uma das inscrições mais importantes para compreender a natureza de Endovélico contém a expressão ex imperato Averno. Os investigadores têm-na entendido como referência a uma ordem vinda do Averno, ou emanada das regiões inferiores. A mensagem divina era associada ao mundo subterrâneo.

Árula com a inscrição «ex imperato Averno». Museu Nacional de Arqueologia, inv. 988.3.194. Fotografia reproduzida em Herminius Mons; identificação confirmada no catálogo RAIZ.

O Averno pertencia à geografia religiosa Greco-Romana do acesso ao mundo dos mortos. A sua presença numa dedicatória a Endovélico é o testemunho mais direto da ligação do Deus a esse domínio. Daí a sua descrição como divindade ctónica, relacionada com a terra e com aquilo que existe nas suas profundezas e foi aqui que originou a sua ligação a Hades.

Os termos «ctónico» e «infernal» têm aqui um sentido antigo. Referem-se ao mundo inferior e aos poderes que nele se situavam, não a um castigo eterno pertencente a outros contextos religiosos.

Esta natureza subterrânea podia ser reconhecida em lugares como grutas, cavidades e nascentes. Leite de Vasconcelos e Cardim Ribeiro sugeriram a possibilidade de ter existido um antro associado ao oráculo de Endovélico. A hipótese procura explicar como os devotos poderiam ter relacionado a mensagem divina com um ponto de contacto com o interior da terra, embora esse espaço ainda não tenha sido identificado de forma segura é possível que este local esteja situado num Santuário da Rocha da Mina.

A ligação a Hades e Plutão

Endovélico é frequentemente apresentado como equivalente lusitano de Hades, o Deus Grego do mundo subterrâneo, e de Plutão. A comparação assenta na referência ao Averno e na interpretação dos símbolos que acompanham o seu culto.

A inscrição avernal oferece o primeiro fundamento. Ao situar a ordem de Endovélico nas regiões inferiores, aproxima o seu poder do domínio de Hades. Um Deus local podia ser compreendido através dessa correspondência de funções, conservando o nome pelo qual era conhecido na região.

O segundo fundamento é a proteção depois da morte. Lambrino e Blázquez interpretaram alguns motivos dos monumentos como sinais de uma proteção que acompanhava o devoto para além da vida. Palmas e coroas foram relacionadas com vitória; os génios alados com tochas, com a condução das almas.

Esses portadores de luz têm especial importância na leitura do culto. Foram entendidos como figuras capazes de orientar a passagem para o outro mundo. A sua presença, juntamente com a referência ao Averno, levou à interpretação de Endovélico como divindade ligada ao destino dos mortos.

O javali representado numa das aras também entrou nessa comparação. Lambrino associou-o à terra, à vegetação e à vida animal, enquanto outros autores acentuaram o seu significado funerário. Nessa leitura, as forças da terra abrangiam a vida que dela nasce e os mortos que nela são depositados. A proteção dos vivos e a ligação ao além podiam, assim, pertencer ao mesmo Deus.

Há ainda um paralelo com a cura e as revelações de Endovélico. Estrabão descreve, em Acharaca, na Ásia Menor, um santuário de Plutão e Kore, nome pelo qual Perséfone também era conhecida. Os doentes procuravam ali a ajuda dos Deuses. Os sacerdotes dormiam numa gruta e recebiam em sonhos indicações de tratamento; alguns doentes atendiam também aos seus próprios sonhos.

O culto de Acharaca mostra que Plutão e Perséfone podiam ser procurados pela saúde dos vivos. A associação entre profundezas, cura e revelação tinha, portanto, lugar no culto do próprio par divino. Esta correspondência ajuda a compreender a aproximação de Endovélico a Hades, embora não demonstre uma transmissão de ritos entre os dois santuários.

A equivalência deve, por isso, ser compreendida a partir das funções e das interpretações do culto.

Serápis oferece outra aproximação importante. O seu culto reuniu tradições Egípcias e Gregas e difundiu uma imagem divina reconhecível no mundo romano.

A ligação Serápis-Hades está documentada em objetos antigos. Uma gema de cornalina conservada no Metropolitan Museum representa Serápis sob a forma de Plutão, com Cérbero ao lado. A inscrição grega refere Zeus Serápis numa afirmação de unidade divina. Nomes e atributos de diferentes Deuses eram reunidos na mesma imagem.

Este encontro de tradições ajuda a compreender o sincretismo. Os devotos podiam reconhecer relações entre Deuses de nomes diferentes e aproximar as suas funções e representações. Um culto local podia incorporar formas conhecidas noutras regiões sem perder o nome da sua divindade.

Endovélico foi venerado nesse ambiente. O seu nome era indígena, mas as inscrições eram escritas em latim e as esculturas seguiam modelos Greco-Romanos. Os habitantes da região participavam nas redes económicas e culturais do Império, através das quais circulavam também formas de representar e compreender os Deuses.

A comparação com Serápis assenta sobretudo na ligação ao mundo subterrâneo e na representação de autoridade divina. Cardim Ribeiro incluiu Serápis entre os modelos comparáveis às cabeças de Endovélico. Outros investigadores exploraram também modelos de poetas, filósofos e heróis, pelo que a semelhança visual deve ser vista como um dos elementos da comparação.

A gema de Serápis-Hades mostra que esse tipo de convergência existiu na Antiguidade. No caso de Endovélico, a leitura sincrética assenta nas funções partilhadas, sem uma dedicatória que identifique expressamente os dois Deuses.

Panóias, perto de Vila Real, fornece um exemplo peninsular do culto de Serápis. Ali, as fragas conservam escadas, cavidades e inscrições de conteúdo ritual relacionadas com divindades infernais. Esse conjunto mostra como um culto Romano podia ocupar um espaço trabalhado na rocha. A comparação com a Rocha da Mina é sugestiva, embora cada lugar tenha de ser entendido a partir dos seus próprios vestígios.

Os símbolos e o nome do Deus

O javali, as aves, as palmas, as coroas e as tochas fazem parte da linguagem visual associada a Endovélico. Os seus significados têm sido discutidos porque ajudam a perceber como os devotos imaginavam o Deus e os seus poderes.

Na ara de Marcus Fannius Augurinus, o javali aparece acompanhado por uma palma e uma coroa. As leituras propostas relacionam esse conjunto com as forças da terra e com a vida depois da morte. As aves foram aproximadas tanto de oferendas a divindades curadoras como dos presságios, duas relações compatíveis com funções atribuídas a Endovélico.

Relevo de javali numa ara dedicada a Endovélico. Um dos símbolos discutidos na interpretação do seu culto. Reprodução de Herminius Mons.

As imagens nem sempre permitem escolher uma única interpretação. Uma ave foi identificada por diferentes autores como animal de oferta ou como corvo ligado à adivinhação.

Essas funções explicam também as comparações com outros Deuses. Asclépio destaca a cura; Fauno e Silvano, o território, a natureza e os lugares de manifestação divina. Cardim Ribeiro desenvolveu a aproximação a Fauno por causa das suas faculdades oraculares. Lambrino comparou Endovélico com Sucellus através dos símbolos da terra e da vida depois da morte.

O nome Endovélico recebeu igualmente várias interpretações. «O muito bom» ou «o muito benévolo» tornou-se uma das mais conhecidas, a partir do trabalho de Leite de Vasconcelos. Outros investigadores propuseram relações com a visão, com o lobo ou com um antigo nome de lugar. A tradução continua discutida, mas a interpretação benévola combina com a confiança que os devotos depositavam na ajuda do Deus.

São Miguel da Mota e a Rocha da Mina

São Miguel da Mota era o centro do culto de Endovélico que melhor conhecemos. O santuário recebeu oferendas ao longo de gerações, sobretudo durante os primeiros séculos do Império Romano. A quantidade de mármore utilizado liga-o às pedreiras da região de Estremoz, Vila Viçosa e Bencatel.

Esquema interpretativo do santuário romano de Endovélico, na encosta nascente de São Miguel da Mota, elaborado a partir das prospecções geomagnéticas. Guerra, Schattner, Fabião e Almeida, 2003, p. 476, fig. 58.

A proximidade dessas explorações ajudava a abastecer o santuário de aras, bases e esculturas. Entre os devotos havia, inclusive, alguém que trabalhava o mármore. A devoção fazia parte da vida das pessoas que habitavam e trabalhavam na região.

O nome indígena do Deus manteve-se num culto que utilizava a língua e a arte Romanas. Essa continuidade do nome mostra como as tradições locais podiam integrar-se no mundo imperial. Em São Miguel da Mota, a relação com Endovélico continuava a ser expressa através da consulta, da promessa e da oferta.

As escavações publicadas em 2003 não identificaram uma fase pré-Romana do santuário. A procura de um lugar de culto anterior levou os investigadores a considerar a Rocha da Mina, situada a poucos quilómetros, junto a um meandro do Lucefécit.

Os degraus, pavimentos e cavidades talhados na rocha deram origem à interpretação desse sítio como santuário. Manuel Calado propôs que ali teria existido uma fase anterior do culto de Endovélico, depois transferida para São Miguel da Mota durante a romanização.

Escadaria talhada na Rocha da Mina. Fotografia de SG Hrodrik Avernus, 2023

A paisagem torna a hipótese compreensível. A rocha trabalhada, as cavidades e o curso de água combinam com a imagem de uma divindade que se manifesta através da terra. As escavações revelaram, contudo, casas e ruas, mostrando que o local tinha uma organização mais complexa do que a de um altar isolado.

Na apresentação do projeto arqueológico para a campanha de 2025, a ocupação reconhecida era situada provisoriamente entre cerca de 50 e 20 a.C. A possibilidade de um santuário continua em estudo. Falta uma inscrição local que nomeie Endovélico, pelo que a atribuição ao Deus e a transferência do culto permanecem hipóteses embora o local seja amplamente conhecido como um santuário pré-Romano entre os devotos que existem ainda nos dias de hoje, e fazem frequentemente peregrinações ao local.

As águas e as tradições do Lucefécit

O vale do Lucefécit já tinha lugares de culto muito antes das ermidas cristãs. Endovélico era venerado em São Miguel da Mota, e a Rocha da Mina, junto à ribeira, conserva estruturas talhadas na rocha cuja função religiosa tem sido investigada. Era nesta paisagem de água, floresta densa, rochedos e elevações que os antigos devotos procuravam o Deus. As tradições cristãs pertencem a uma fase posterior da história desses lugares.

Ribeira do Lucefécit e a paisagem rochosa das suas margens, junto ao santuário da Rocha da Mina. Fotografia de SG Hrodrik Avernus, 2023

A relação da ribeira com as profundezas pode também ter antecedentes no mundo Romano. O Itinerário de Antonino menciona uma estação chamada Ad Atrum flumen, «junto ao rio negro», que Cardim Ribeiro e Ledo Caballero relacionam com a região do Lucefécit. Essa localização é discutida, mas oferece uma hipótese de ligação entre a designação antiga do rio e a natureza subterrânea de Endovélico.

As formas medievais Oydaluiceuez e Udialuiciuez, documentadas no século XIII, foram relacionadas com o árabe e interpretadas igualmente como «rio negro». Essa correspondência permite propor a conservação de um significado antigo através da mudança de língua. A semelhança posterior com Lúcifer terá favorecido novas explicações populares para o nome. A antiguidade da ribeira e dos cultos do vale não significa, porém, que a forma atual «Lucefécit» já fosse utilizada pelos devotos de Endovélico.

As águas escuras têm interesse na comparação com o mundo subterrâneo. Os textos antigos descrevem fontes e lagos associados à entrada no domínio dos mortos, entre os quais o Averno. Uma nascente ou uma cavidade com água podiam ser entendidas como pontos de contacto com o interior da terra. É nesse contexto que Ledo Caballero estudou a relação entre o Lucefécit e Endovélico.

Na Idade Média, essa paisagem aparece já sob uma interpretação cristã. Na cantiga 213 de Santa Maria, ligada a Terena, o narrador evita dizer o nome de um rio e o relato inclui a presença do diabo junto à margem. A associação do Lucefécit a Lúcifer pode ser entendida como uma releitura cristã de um lugar anteriormente sagrado. O relato medieval testemunha essa nova imagem da região, embora não conserve uma descrição dos seus antigos ritos.

Nesta leitura da substituição dos cultos, as águas da nascente hoje conhecida como Fonte Santa já seriam consideradas curativas antes da cristianização. A sua reputação teria pertencido ao ambiente religioso em que Endovélico era procurado pela saúde e pela proteção. Mais tarde, os cristãos teriam incorporado essa devoção, atribuindo as graças recebidas a Nossa Senhora da Fonte Santa. Tal como São Miguel ocupou o antigo lugar de culto de Endovélico, a invocação mariana teria dado uma identidade cristã à veneração das águas.

Os testemunhos conservados mostram essa devoção já sob forma cristã. Leite de Vasconcelos descreveu a fonte próxima de Bencatel como uma «fonte de virtude», procurada por crentes de longe, e reproduziu no terceiro volume de Religiões da Lusitânia dois painéis de milagres ligados à Fonte Santa de Terena. Manuel Calado incluiu este lugar junto ao Lucefécit na sua interpretação da continuidade religiosa do vale.

A antiguidade dessa reputação curativa e a sua ligação específica a Endovélico permanecem hipóteses: os testemunhos conhecidos da Fonte Santa são posteriores ao culto do Deus. A interpretação proposta é a de uma devoção às águas herdada e cristianizada; refere-se às virtudes que lhes seriam atribuídas, sem estabelecer propriedades medicinais da própria ribeira.

As tradições populares da região acrescentam outras histórias de seres que habitam as rochas. Na Pedra da Moura do Castelão de Rio de Moinhos, dizia-se ouvir uma moura a costurar à meia-noite. No Pego da Moura, uma narrativa apresenta uma moura em forma de serpente, alimentada por um pastor com leite de cabra, até o devorar.

Na Casa da Moura do Castelo Velho, um tesouro seria guardado por uma moura e por um touro negro monstruoso. Quem quisesse obter a riqueza teria de enfrentar o animal à meia-noite. A coragem era a condição para ultrapassar o perigo e alcançar aquilo que estava escondido.

A tradição de Santo Aleixo reúne uma cavidade na rocha, uma cabra que alimenta o santo e uma azinheira cuja raiz teria propriedades curativas. O interior da rocha aparece como lugar de abrigo e de origem; a árvore, como fonte de cura.

Estas histórias foram recolhidas muito depois do culto antigo. As suas afinidades com a leitura ctónica de Endovélico explicam o interesse de Manuel Calado por elas: seres subterrâneos, animais guardiões, riquezas ocultas e poderes curadores. Podem ser estudadas como tradições da paisagem onde o Deus foi venerado, embora não exista uma transmissão documentada que permita identificá-las como mitos antigos de Endovélico.

A ligação entre Endovélico e Ataecina

Endovélico e Ataecina foram aproximados como um possível par divino do mundo subterrâneo. Scarlat Lambrino defendeu essa interpretação em 1951, segundo a passagem reproduzida por José d’Encarnação em Divindades indígenas sob o domínio romano em Portugal. Reconhecia nos dois Deuses os representantes desse par, embora observasse que não pareciam estar reunidos no mesmo culto. A proposta permite compreender Ataecina como possível companheira de Endovélico, por correspondência com Perséfone e Hades.

A base dessa aproximação está nas funções subterrâneas atribuídas a ambos. Endovélico comunicava por uma ordem associada ao Averno; Ataecina aparece identificada com Proserpina, a Perséfone dos Gregos, na fórmula Dea Ataecina Turibrigensis Proserpina. Tovar já comparava, em 1950, o carácter infernal das duas divindades. A identificação de Ataecina com a rainha do mundo dos mortos dá, assim, um fundamento à leitura de Endovélico como seu correspondente masculino.

Essa relação pode ser desenvolvida através da proteção dos vivos. Endovélico recebia pedidos pela saúde e pelo bem-estar familiar; Ataecina-Proserpina era invocada para intervir em favor de quem a procurava. O santuário de Plutão e Perséfone em Acharaca, onde os doentes esperavam indicações de cura através de sonhos, oferece um paralelo antigo para reunir essas funções num par subterrâneo. Ajuda a interpretar a possível relação entre Endovélico e Ataecina, sem fornecer um testemunho do seu culto conjunto na Lusitânia.

Cardim Ribeiro propôs outra ligação entre os dois cultos, através da sua transformação em época Romana. No seu estudo de 2005, relacionou a interpretação de Endovélico como Fauno ou Silvano com a de Ataecina como Ferónia. As populações de origem itálica instaladas na região de Mérida teriam reconhecido nas divindades locais afinidades com os Deuses que já veneravam. Nesta hipótese, os dois cultos participavam em um mesmo processo de adaptação religiosa, ligado à paisagem, aos bosques sagrados e às tradições trazidas de Itália.

A substituição de Endovélico por São Miguel

Em São Miguel da Mota, o culto de Endovélico acabou por dar lugar ao de São Miguel Arcanjo. A ermida cristã ocupou o antigo lugar de culto e incorporou pedras dedicadas ao Deus. Essa substituição deixou vestígios materiais: monumentos que tinham servido para honrar Endovélico passaram a integrar um edifício consagrado a uma figura cristã.

Leite de Vasconcelos explicou a escolha de São Miguel pela sua associação à cura. Na sua interpretação, o arcanjo sucedeu a Endovélico como protetor da saúde. Cura, proteção e destino das almas oferecem, assim, correspondências para compreender a substituição religiosa do lugar.

Cardim Ribeiro propôs que a presença de São Miguel pudesse corresponder à cristianização de um lugar cuja antiga sacralidade passara a ser entendida como diabólica. Nessa leitura, o arcanjo ocupava o território de um poder anterior que o cristianismo rejeitava. A associação popular do Lucefécit a Lúcifer enquadra-se nessa transformação da memória religiosa da região.

A substituição no uso do lugar é factual; a transferência das funções de Endovélico para o arcanjo é a interpretação desses vestígios e das afinidades entre as duas figuras. A cronologia impede que se afirme uma passagem imediata: pode ter havido séculos de intervalo, e Cardim Ribeiro admite também uma primeira cristianização sob outra invocação. São Miguel tornou-se, em todo o caso, o titular cristão do lugar onde Endovélico tinha recebido culto.

No final do século XIX, essas pedras permitiram recuperar os nomes dos antigos devotos e os títulos do seu Deus. A ermida foi desmantelada em 1890 no âmbito dos trabalhos de Leite de Vasconcelos. As inscrições encontradas conservam os testemunhos da devoção a Endovélico: pedidos pela saúde, compromissos familiares, ofertas feitas após visões e agradecimentos pela proteção recebida.

Fontes:

Endovellicus, Religiões da Lusitânia: loquuntur saxa

Divindades indígenas sob o domínio romano em Portugal

Religiões da Lusitânia, volume II: Tempos proto-históricos

Religiões da Lusitânia, volume III: Tempos históricos

Endovélico e Rocha da Mina, o contexto arqueológico

Endovellicus, The Encyclopedia of Ancient History

Los dioses de la Hispania céltica

Le dieu lusitanien Endovellicvs

O Deus Sanctus Endovellicus durante a Romanidade: ¿uma interpretatio local de Faunus/Silvanus?

Die Idealköpfe des Endovellicus, eine Zwischenbilanz

Novas investigações no santuário de Endovélico: a campanha de 2002

The Endovellicus Sanctuary in Portugal: An Example of Language Variation throughout Votive Inscriptions in Latin

El mármol en el Santuario de Endovellicus

Arqueologia e apropriações do discurso científico na construção da identidade celta no Ocidente Peninsular e nos novos cultos a Endovélico

Rocha da Mina Archaeological Project

Niger fluvius: aguas oscuras y dioses infernales. El caso de Endovélico

Relevo de Serápis, British Museum

Carnelian intaglio: Serapis-Hades with Kerberos, Metropolitan Museum

Santuário de Panóias, Património Cultural

Geografia, XIV, 1, 44, Estrabão

Dedication to Dea Ataecina Turibrigensis Proserpina, DEpHis

Hallazgo de dos nuevas piezas de mármol con dedicaciones a Ataecina/Proserpina en Augusta Emerita

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