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Secção das Personalidades Zevistas

krysalis88

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May 1, 2023
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Al-KINDI
Polímata
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Abū Yūsuf Ya'qūb ibn Isḥāq al-Kindi (c. 801–873) ou Al-Kindi, conhecido em latim como Alkindus, foi o primeiro verdadeiro polímata da Era da Ignorância. Reconhecido como o “Primeiro Filósofo dos Árabes”, fez contribuições originais em várias áreas do saber, incluindo filosofia, matemática, medicina, ótica, astronomia, criptografia e teoria musical. Uma das suas realizações mais notáveis foi a difusão do uso dos numerais indianos, de que continuamos a beneficiar atualmente.

Ele escreveu centenas de tratados, muitos dos quais introduziram e desenvolveram o conhecimento científico e filosófico no mundo islâmico. Estes escritos viriam mais tarde a exercer grande influência na Europa medieval. Além disso, foi também um importante teólogo do seu tempo, prestando assistência pessoal aos califas na Casa da
Sabedoria, o principal centro de conhecimento de Bagdade. As suas reflexões filosóficas sobre as obras de Platão e Aristóteles acabariam por lhe causar sérios problemas no final da vida, levando-o à acusação de apostasia e ao consequente ostracismo por parte da sociedade que tanto havia enriquecido.

PRIMEIROS ANOS DA VIDA

Al-Kindi nasceu na tribo árabe dos Kinda, originária do sul da Arábia, mas estabelecida no atual território do Iraque havia já muitas gerações. Ao longo do Império Abássida, a sua família prosperou enormemente graças ao lucrativo comércio de escravos na região vizinha de Basra, e o seu pai chegou a ser um dos principais governadores de Cufa. Durante a adolescência, Al-Kindi recebeu instrução na língua grega.

Posteriormente, estudou em importantes instituições educativas de Bagdade, onde chamou a atenção dos califas pela sua perspicácia e habilidade em realizar traduções fiéis e coerentes de obras gregas. O califa Al Ma’mun nomeou-o, algum tempo depois, supervisor da Casa da Sabedoria, encarregando-o da coordenação das traduções dos textos gregos.


CASA DA SABEDORIA

A obra filosófica de Al-Kindi lançou as bases da tradição filosófica árabe. Foi uma figura crucial na divulgação da filosofia grega na língua do Império. Como líder da Casa da Sabedoria de Bagdade, patrocinou a tradução de textos antigos e foi responsável por cunhar grande parte do vocabulário filosófico em árabe. Os seus próprios escritos abrangem áreas como a lógica, a ética, a teologia e a metafísica.

Uma das suas obras mais importantes, Sobre a Primeira Filosofia, constitui a mais antiga metafísica sistemática escrita em árabe. Nela, Al-Kindi procurou sintetizar as ideias neoplatónicas e aristotélicas numa visão metafísica unificada. Defendeu a existência de um único Criador eterno, negando contudo a eternidade do cosmos, numa tentativa de conciliar a filosofia grega com os princípios do Islão. No centro da sua metafísica está o conceito de Deus como o “Verdadeiro Uno”, absolutamente singular e incomparável — uma posição tão rigorosa que se aproxima de uma teologia negativa (segundo a qual não se podem atribuir qualidades comuns a Deus).

Al-Kindi concebeu também a ideia da alma como uma entidade imaterial e substancial distinta do corpo, em oposição às visões materialistas predominantes na sua época. Essa explicação representava uma abordagem inovadora do conceito de alma no contexto contemporâneo, em consonância com as tradições platónicas.


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Primeira página de Sobre a Decifração de Mensagens Criptográficas


Metodologicamente, Al-Kindi procurou harmonizar a filosofia com a religião. Sustentava que a verdade devia ser aceite independentemente da sua origem e afirmou, de forma célebre, que ninguém deveria envergonhar-se de adquirir a verdade de povos estrangeiros, pois “nada é mais valioso do que a verdade”.

Ele via a filosofia como um complemento da revelação divina: servindo-se das ferramentas da razão para aprofundar a compreensão dos princípios sagrados. Ao fazê-lo, aperfeiçoou as práticas anteriores ao integrar o racionalismo grego no pensamento islâmico, fornecendo explicações sistemáticas e racionais para questões teológicas como a criação, a profecia e os atributos de Deus, sem, no entanto, mencionar diretamente os seus predecessores gregos ou muçulmanos. O seu legado filosófico consistiu em inaugurar a falsafa (a tradição peripatética de Aristóteles) no mundo árabe, o que lhe valeu o título de “Pai da Filosofia Árabe”.

Contudo, Al-Kindi elaborou e traduziu partes significativas de obras que acabariam por lhe granjear acusações de heresia e colocá-lo em perigo por causa das suas posições teológicas, em particular as que traduziu de Plotino e que, por engano, considerou serem textos fundamentais de Aristóteles. As rivalidades na Casa da Sabedoria agravaram ainda mais a sua situação. O califa Al-Mutawakkil, conhecido pelo seu fanatismo religioso, enviou agentes da polícia secreta para o agredir e pilhar a sua biblioteca. Al-Kindi tornou-se, gradualmente, uma figura marginal e solitária, e a sua filosofia caiu em relativa obscuridade face à dos seus sucessores, com grande parte da sua obra a ser eliminada ou censurada por autoridades islâmicas.

Foi também por esta altura que o Império Abássida entrou no período da chamada Anarquia de Samarra, mergulhando rapidamente em declínio. A Rebelião Zanj — protagonizada por até um milhão de escravos negros das plantações, apoiados por várias tribos árabes marginalizadas — eclodiu pouco depois, lançando o Império num ciclo de conflitos e fragmentação sem fim.


MATEMÁTICA

Na área da matemática, Al-Kindi revelou-se notavelmente inovador e desempenhou um papel fundamental na difusão dos numerais e conceitos matemáticos indianos a um público mais vasto. Escreveu pelo menos quatro volumes sobre o sistema numérico hindu (Kitāb fī Isti‘māl al-A‘dād al-Hindiyyah, “Sobre o Uso dos Numerais Hindus”), que contribuíram de forma decisiva para a adoção desses numerais no Médio Oriente e, mais tarde, na Europa. Ao demonstrar a eficiência do sistema indiano — baseado no valor posicional e no uso do zero —, os seus trabalhos aperfeiçoaram as práticas anteriores e abriram caminho para a aritmética moderna no Ocidente latino.

Os escritos matemáticos de Al-Kindi foram vastos e diversificados. Abordou temas como a aritmética, a geometria, a proporcionalidade e a análise numérica. Por exemplo, redigiu textos sobre a “harmonia dos números”, as quantidades relativas e os algoritmos de cancelamento, entre outros assuntos, revelando um profundo entendimento da teoria dos números e das técnicas algébricas. No campo da geometria, dedicou-se a questões como a teoria das paralelas, demonstrando o seu envolvimento com a obra de Euclides. Aplicou ainda princípios geométricos à resolução de problemas de ótica e astronomia, recorrendo frequentemente a diagramas matemáticos para sustentar as suas teorias.


ASTRONOMIA

Al-Kindi fez contribuições significativas para a astronomia e a cosmologia, frequentemente em estreita ligação com a astrologia. Aceitou e desenvolveu o modelo ptolomaico do cosmos. Nos seus escritos cosmológicos, descrevia os corpos celestes como seres racionais que obedecem à vontade de Deus — os seus movimentos circulares perfeitos eram interpretados como atos de adoração e instrumentos da providência divina. Al-Kindi apresentou argumentos empíricos a favor das influências celestes; observou, por exemplo, que as mudanças das estações se correlacionam com as posições do Sol e dos planetas, e chegou até a sugerir que as características físicas dos povos variam conforme o clima astronómico da sua região. Esse tipo de raciocínio demonstrava um esforço em fundamentar a astrologia na observação e na filosofia natural.

O filósofo árabe escreveu numerosos tratados astrológicos, frequentemente com finalidades práticas, como a aplicação da Astrologia Horária para responder a questões concretas, e a utilização da técnica de Decumbiture para prever morte ou recuperação. Entre os seus títulos mais notáveis contam-se O Livro do Julgamento das Estrelas (um compêndio sobre a leitura de horóscopos, também conhecido como Liber iudiciorum astrorum), Sobre a Mudança do Clima (De mutatione temporum, um estudo meteorológico), Sobre os Eclipses, e Sobre os Sinais da Astronomia Aplicados à Medicina (De Signis Astronomiae ad Medicinam). Partindo de princípios místicos, Al-Kindi propôs ainda um sistema baseado nas fases da Lua para antecipar os dias críticos na doença de um paciente, combinando assim observação com cálculo.

Nestas obras, desenvolveu a Astrologia Babilónica e Helenística anterior através de uma análise mais sistemática e da tentativa de oferecer explicações naturais para os efeitos astrológicos. Escreveu, por exemplo, um tratado sobre as marés, no qual explicava a influência lunar por meio do aquecimento e arrefecimento da água (uma das primeiras tentativas de formular uma teoria das marés). A forma como Al-Kindi combinou astronomia, observação empírica e física representou um avanço notável na aproximação da astrologia a uma ciência. Muitos dos seus textos astrológicos foram traduzidos para latim e amplamente divulgados. Já no Renascimento, o seu De Iudiciis Astrorum foi impresso em Veneza, testemunhando a sua influência duradoura na astrologia europeia. A sua ideia de que os raios celestes transmitem forças teve um impacto particularmente relevante na Europa, influenciando mais tarde teorias medievais de ótica e de magia astral (nomeadamente nos pensamentos de Roger Bacon e Marsilio Ficino).


ÓTICA

Al-Kindi contribuiu para a ótica e procurou revitalizar essa ciência. É, de facto, reconhecido como o primeiro grande autor a tratar da teoria ótica após a Antiguidade. Baseando-se nas obras de Euclides e de Ptolomeu, escreveu um tratado de ótica conhecido em latim como De Aspectibus (“Sobre as Visões” ou Ótica). Nesta obra, Al-Kindi analisou de forma rigorosa o modo como ocorre a visão, bem como a natureza da luz e da cor.

Considerou e comparou duas teorias gregas predominantes acerca da visão: a teoria da “intromissão” de Aristóteles, segundo a qual o olho recebe as formas através de um meio impregnado de luz; e a teoria da “extramissão” de Euclides, de acordo com a qual o olho emite raios visuais em linhas retas. A análise de Al-Kindi era de natureza geométrica, e ele acabou por favorecer os argumentos de Euclides. Observou que a explicação aristotélica falhava em fenómenos de perspetiva — como o facto de um objeto circular parecer elíptico quando observado de um ângulo — e também não explicava a visão noturna.

Embora muitas das suas observações não fossem totalmente corretas, compreendeu aspetos essenciais da propagação retilínea dos raios luminosos e da natureza da visão noturna, tentando colmatar as lacunas da teoria de Aristóteles. A investigação ótica de Al-Kindi representou um avanço em relação ao conhecimento anterior ao introduzir o conceito de que os raios de luz transportam força física — uma ideia que estabelecia uma ponte entre a geometria pura e a física, mas que também refletia a sua vertente meditativa e filosófica.


MEDICINA

Como médico, Al-Kindi dedicou grande parte da sua atenção à medicina, em especial à farmacologia. Escreveu mais de vinte tratados médicos, sendo o mais célebre De Gradibus (“Sobre os Graus”), que representa uma tentativa pioneira de quantificar a medicina. Nesta obra, Al-Kindi abordou um problema prático fundamental: como determinar a potência de medicamentos compostos e as dosagens adequadas.

A medicina galénica descrevia os fármacos como sendo quentes, frios, húmidos ou secos em quatro graus, mas tratava-se de uma escala puramente qualitativa. Al-Kindi transformou-a numa escala quantitativa ao criar um método matemático para medir a força dos medicamentos. Partindo do pressuposto de que cada “grau” sucessivo de uma qualidade duplica o efeito, desenvolveu cálculos para combinar os ingredientes corretamente.

Por exemplo, apresentou uma fórmula para determinar o grau de calor de uma mistura com base nas quantidades e nos graus inerentes dos seus componentes. Este método permitia ao médico prever matematicamente a eficácia de um remédio composto, tornando a dosagem mais precisa e previsível.

Segundo o historiador da medicina Plinio Prioreschi, o De Gradibus foi “a primeira tentativa de quantificação séria na medicina.

A abordagem de Al-Kindi representou um grande avanço em relação às práticas anteriores ao introduzir precisão. Enquanto os médicos anteriores se baseavam sobretudo no julgamento qualitativo e na experiência empírica, Al-Kindi trouxe peso, medida e número para fundamentar as decisões médicas — um passo notável em direção aos métodos quantitativos e baseados em evidências que apenas muito mais tarde se tornariam padrão. Além disso, escreveu sobre vários temas específicos: elaborou um formulário farmacológico com listagens de plantas e minerais medicinais, um tratado sobre perfumes e, possivelmente, obras hoje perdidas sobre oftalmologia, revelando a amplitude do seu interesse médico.

Muitas das suas observações influenciaram posteriormente Al-Razi e outros médicos, incentivando o desenvolvimento da medicina numa direção futura.


MESTRE DA CRIPTOGRAFIA

Uma das realizações mais notáveis de Al-Kindi — largamente desconhecida na Europa até aos tempos modernos — foi a invenção da criptoanálise através da análise de frequências, o que representa, na prática, o nascimento da criptografia científica. No tratado intitulado Risāla fī Istikhrāj al-Mu‘ammā (“Sobre a Extração de Mensagens Ocultas”), conhecido em inglês como On Deciphering Cryptographic Messages, Al-Kindi apresentou a primeira explicação registada de como decifrar textos encriptados analisando as frequências das letras.


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Essa obra, escrita por volta do ano 850, descreve de forma sistemática o método para atacar uma cifra de substituição. Al-Kindi explica que, ao dispor de uma mensagem cifrada e conhecendo a língua do texto original, deve comparar-se a frequência das letras cifradas com a frequência típica das letras dessa língua. Ele descreve a recolha de uma amostra suficientemente grande de texto comum, contando quantas vezes cada letra aparece (identificando as mais frequentes, as segundas mais comuns, e assim sucessivamente), para depois estabelecer uma correspondência entre as frequências dos símbolos cifrados e as das letras do texto original.

Substituindo o símbolo cifrado mais frequente pela letra mais usada, o segundo símbolo mais frequente pela segunda letra mais comum, e assim por diante, torna-se possível começar a revelar a mensagem. Este método é conhecido como análise de frequências, e a exposição de Al-Kindi constitui o exemplo mais antigo conhecido em todo o mundo.

Esta descoberta representou uma verdadeira inovação metodológica. Al-Kindi foi o primeiro a transformar a criptoanálise numa ciência baseada na estatística e na linguística. Chegou mesmo a discutir o uso de tentativas de decifração e de padrões prováveis de palavras para refinar a técnica, demonstrando uma compreensão extraordinariamente avançada.


TEORIA MUSICAL

Al-Kindi foi também um pioneiro da teoria musical. É reconhecido como o primeiro grande teórico da música no mundo islâmico cujos trabalhos chegaram até nós. Nos seus escritos musicais, Al-Kindi aplicou o raciocínio filosófico e matemático à arte do som, tal como fizeram Pitágoras e Aristóxeno na Grécia Antiga. Uma das suas principais contribuições foi a adaptação sistemática do sistema musical grego à tradição árabe. Transferiu o sistema grego de tetracordes para o alaúde árabe (ʿūd), introduzindo assim as convenções tonais gregas na teoria musical árabe.

Utilizava letras do alfabeto árabe para designar as notas, mas fornecia igualmente a correspondência com os nomes de notas gregas. Este método ajudou a estabelecer uma ponte entre o entendimento musical grego e o do Médio Oriente.

Acredita-se que Al-Kindi tenha acrescentado uma quinta corda ao ʿūd (alaúde) , alargando o seu alcance e ajustando a afinação para acomodar melhor as escalas teóricas. Essa inovação na construção de instrumentos demonstra o seu envolvimento prático com a música. Escreveu pelo menos quatro tratados sobre teoria musical, conhecidos pelos seus títulos e fragmentos: Sobre a Composição das Melodias, Sobre as Proporções Harmónicas (Modos) e Tons, Sobre as Partes da Música e um texto sobre a construção de instrumentos de corda (descrevendo instrumentos de uma a dez cordas).

Nestes trabalhos, Al-Kindi abordou a afinação do alaúde, a divisão da oitava e os efeitos cosmológicos e terapêuticos da música. Defendia, por exemplo, que a música exercia uma influência curativa sobre a alma e o corpo, ecoando a antiga ideia de que a música podia servir como remédio. Explorou também as relações entre os intervalos musicais e os corpos celestes, sugerindo uma espécie de “música das esferas”.

Estes desenvolvimentos baseavam-se nas suas experiências com o som e a vibração, frequentemente associadas ao ocultismo — sendo provável que parte do seu corpus filosófico estivesse relacionado com essas experiências.

Ao construir sobre a teoria musical grega e adaptá-la à música do seu tempo, Al-Kindi promoveu avanços significativos na prática musical do século IX. Até então, os músicos árabes seguiam sobretudo uma tradição oral; Al-Kindi contribuiu para a criação de uma estrutura teórica escrita que permitia preservar e transmitir o conhecimento musical de forma científica. Indiretamente, a sua fusão do pensamento musical helénico e árabe enriqueceu a história global da teoria da música.

Ao basear-se na teoria musical grega e adaptá-la à música do seu tempo, Al-Kindi fez progredir a prática musical do século IX. Os músicos árabes anteriores tinham uma tradição oral; Al-Kindi ajudou a criar uma estrutura teórica escrita para a música. Introduziu uma forma de notação musical e uma terminologia precisa, o que permitiu preservar e ensinar o conhecimento musical de forma científica. Indiretamente, a sua fusão do pensamento musical helénico e árabe enriqueceu a história global da teoria da música.


INFLUÊNCIA NA EUROPA

Embora tenha caído em relativa obscuridade após a sua perseguição, a influência intelectual de Al-Kindi estendeu-se muito para além do mundo árabe, sobretudo através do movimento de tradução do árabe para o latim ocorrido no século XII. Muitas das suas obras foram traduzidas para latim, permitindo que os estudiosos europeus tivessem acesso às suas ideias. Gerard de Cremona, um prolífico tradutor em Toledo, traduziu vários dos textos de Al-Kindi.

Registos históricos sugerem até que Gerard traduziu “quase todos os livros de... Al-Kindi” para latim, especialmente os relacionados com medicina, matemática e astronomia. Sabe-se, por exemplo, que o De Gradibus (sobre farmacologia) foi traduzido e estudado na Europa, e que Roger Bacon o conhecia — chegou a citar o método de dosagem de Al-Kindi. O tratado ótico De Aspectibus também estava disponível em latim e tornou-se uma fonte fundamental para a ciência ótica medieval.

Essa obra influenciou o trabalho de Robert Grosseteste, Roger Bacon e Witelo, que foram pioneiros da ótica na Europa do século XIII. Bacon, em particular, elogiou as contribuições de Al-Kindi para a ótica, classificando-o logo após Ptolomeu, e adotou a ideia de forças radiantes na sua própria análise da luz e da visão.

Na astronomia e na astrologia, os escritos de Al-Kindi encontraram um público recetivo entre os estudiosos latinos interessados em astrologia. Textos como De Iudiciis Astrologorum (Livro dos Julgamentos Astronómicos) e De Radiis circularam sob o seu nome latinizado, “Alkindus”.

Albertus Magnus e Tomás de Aquino referem “Alkindus” nas suas discussões sobre a causalidade astrológica, indicando que as suas ideias sobre raios e influências estelares eram debatidas nos círculos escolásticos. Um compêndio latino de prognósticos astrológicos, Liber novem iudicum in iudiciis astrorum (1509), foi impresso na Europa renascentista com o nome de Al-Kindi, demonstrando a reputação duradoura que manteve neste campo. Em matemática, a transmissão dos numerais indo-arábicos para a Europa — um desenvolvimento transformador — deveu algo à promoção desse sistema por Al-Kindi. Os tratados astrológicos de Guido Bonatti mostram nitidamente a sua influência.

Juntamente com as obras de Al-Khwarizmi, os tratados de Al-Kindi sobre cálculo numérico eram conhecidos dos tradutores; um texto latino sobre aritmética, Algorismus per Momem Alkindus, é-lhe atribuído em alguns manuscritos. Este material ajudou a preparar o terreno para a adoção europeia dos numerais indianos durante a Alta Idade Média.

Embora figuras posteriores e mais célebres, como Avicena e Averróis, frequentemente o tenham eclipsado, os estudiosos europeus dos séculos XII e XIII consideravam Alkindus uma autoridade. O seu nome surge em listas de sábios e em enciclopédias.

Por exemplo, Miguel Escoto, o erudito da corte de Frederico II, citou “Alkindi” em questões astrológicas no início do século XIII. Roger Bacon não só utilizou os estudos de Al-Kindi em ótica e medicina, como também o mencionou em ligação à alquimia e à ciência dos calendários (conhecendo bem a sua posição crítica em relação à alquimia). Através dessas referências, a influência de Al-Kindi foi-se difundindo pelas primeiras universidades europeias. Em suma, as traduções latinas das suas obras funcionaram como autênticos canais de transmissão do conhecimento.

O papel de Al-Kindi na história intelectual da Europa mostra que foi um verdadeiro precursor — um transmissor do saber greco-árabe que acrescentou ideias originais e ajudou a impulsionar as tradições escolástica e científica europeias.


BIBLIOGRAFIA

OUP Philosophy Blog – “Philosopher of the Month: al-Kindī”

Al-Kindi Writes the First Treatise on Cryptoanalysis, Stanford Encyclopedia of Philosophy

Al-Kindi, Peter Adamson
 
AL-RAZI
Polímata

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Al-Razi (Rhazes) destaca-se como um dos médicos, cientistas e físicos mais competentes da história — um polímata de intelecto prodigioso. Traçando um caminho pioneiro na medicina e nos primórdios do estudo da química, a sua vida foi marcada por grandes realizações. Os seus escritos sobre diversos temas tornaram-se profundamente influentes.

As suas contribuições para a ciência e para a medicina foram profundamente singulares e exerceram grande influência na Europa e na Índia, redefinindo o papel do médico e estabelecendo as bases da pediatria como disciplina formal. No entanto, foram as suas convicções filosóficas, herdadas de Platão, que o colocaram em perigo durante a sua vida. Perseguido em meio a controvérsias religiosas, em grande parte devido à sua teologia heterodoxa, esses acontecimentos tornaram-no a “ovelha negra” da era islâmica primitiva.


MÉDICO DOS MÉDICOS

A reputação de Al-Razi como um dos maiores médicos da história assenta na sua acuidade clínica e nos seus extensos escritos médicos. Exerceu funções como diretor de hospitais em Rayy e em Bagdade, onde deu ênfase à observação empírica e ao cuidado direto com os doentes.

Não hesitava em desafiar as autoridades clássicas, como Galeno, sempre que as provas o exigiam — uma característica exemplificada pelas suas críticas sistemáticas e pelos seus estudos de caso. Algumas das suas contribuições estabeleceram, na prática, novos campos do saber e introduziram métodos inéditos na terapia e na ética médica.

Al-Razi registava meticulosamente os históricos clínicos e os sintomas dos pacientes, utilizando-os como base para o diagnóstico e o tratamento. As suas anotações clínicas, presentes em obras como al-Hawi, demonstram uma notável capacidade de identificar sintomas superficiais das doenças, prever desfechos e relacionar sintomas com alterações do corpo.​

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Defendia firmemente a verificação das teorias através da prática, tendo mesmo realizado um dos primeiros ensaios clínicos de que há registo, comparando grupos tratados e não tratados. Por exemplo, para testar a sangria em casos de meningite, dividiu os pacientes em dois grupos — aplicando a sangria a um e não ao outro — e observou que apenas o grupo sem tratamento progredia para meningite fatal. Assim, concluiu a eficácia do procedimento.

Uma das descobertas médicas mais célebres de Al-Razi foi a distinção entre a varíola e o sarampo, doenças que frequentemente eram confundidas antes e depois do seu tempo.

No seu tratado Kitab al-Judari wa al-Hasbah (O Livro da Varíola e do Sarampo), descreveu com precisão os diferentes percursos clínicos e tipos de erupção cutânea de cada uma. Trata-se da primeira descrição científica que reconhece essas doenças como distintas, tendo fornecido orientações detalhadas sobre o seu diagnóstico e tratamento. A exatidão e a originalidade dessa obra foram elogiadas pela Organização Mundial da Saúde, que a descreveu como “o primeiro tratado científico” sobre doenças infeciosas.

Al-Razi é frequentemente considerado o fundador da pediatria. Foi o autor de As Doenças das Crianças, o primeiro tratado que trata a pediatria como uma área independente. Nessa obra, catalogou as doenças infantis e os respetivos tratamentos, reconhecendo que as crianças exigem cuidados e observações específicos.​


DESENHO MÉDICO

Como médico e alquimista, Al-Razi fez avançar a farmácia ao introduzir novas substâncias e preparações medicinais.

Foi também um dos primeiros a aplicar o álcool destilado como antisséptico e solvente medicinal, tendo ele próprio destilado etanol. A ênfase de Al-Razi na eficácia e nas dosagens dos medicamentos é evidente nos seus escritos. Dedicou secções inteiras das suas obras enciclopédicas à farmacologia, discutindo a potência dos fármacos e os métodos de preparação.

Aperfeiçoou e popularizou instrumentos farmacêuticos como almofarizes, frascos e espátulas usados na composição de medicamentos, estabelecendo, na prática, padrões para a prática farmacêutica. Além disso, o seu tratado Bur’al-Sa’ah (“Cura em Uma Hora”) apresentava remédios de ação rápida para dores comuns — como dor de cabeça, dor de dentes ou cólicas — refletindo o seu enfoque prático em aliviar o sofrimento de forma imediata.

Al-Razi aplicou o pensamento científico à saúde pública e ao desenho hospitalar. É célebre o episódio em que escolheu o local para um novo hospital em Bagdade pendurando pedaços de carne em diferentes pontos da cidade e observando onde se decompunham mais lentamente — partindo do princípio de que o local com o ar mais puro promoveria uma melhor recuperação.

Como médico-chefe, organizou o hospital com enfermarias separadas para diferentes tipos de doenças e deu especial importância à higiene e à ventilação. É amplamente reconhecido o seu mérito por ter estabelecido, em Bagdade, a primeira ala psiquiátrica do mundo dedicada ao tratamento de pacientes com doenças mentais.

Tratava os distúrbios mentais como condições médicas e não como aflições sobrenaturais. Escreveu que as perturbações mentais têm causas fisiológicas, e não origem demoníaca — uma visão que se relacionava com as suas verdadeiras convicções religiosas e com o seu desejo de questionar a influência islâmica dominante.​


QUÍMICO

As experiências de Al-Razi levaram à descoberta — ou à primeira documentação clara — de várias substâncias importantes. É frequentemente creditado como o descobridor do ácido sulfúrico (H₂SO₄), o poderoso “óleo de vitríolo” produzido pela destilação seca de minerais. Este ácido tornar-se-ia, nos séculos seguintes, um componente indispensável dos laboratórios químicos. Obteve também etanol (álcool etílico), como já referido, e reconheceu as suas propriedades como solvente e antisséptico. Estas duas substâncias — o ácido sulfúrico e o etanol — contam-se entre as descobertas químicas mais significativas do período medieval. Para além destas, os escritos de Al-Razi indicam que produziu ou utilizou ácido nítrico e ácido muriático (clorídrico), bem como diversos sais e compostos metálicos.

Manipulou extensivamente o arsénico e o enxofre; na sua obra Sirr al-Asrar fornece instruções detalhadas para a manipulação dessas substâncias, provavelmente descrevendo métodos para obter óxido de arsénico e enxofre destilado ou compostos de sulfureto. Inventou também produtos de uso medicinal e prático — por exemplo, receitas para a produção de sabão a partir de óleos vegetais e álcalis são-lhe atribuídas, tal como a preparação de substâncias antissépticas para o tratamento de feridas. Ao separar os factos químicos das crenças e lendas populares, Al-Razi reuniu um vasto corpo de conhecimentos químicos práticos.​
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Al-Razi escreveu numerosos livros sobre alquimia, dos quais dois se tornaram especialmente célebres. A sua obra-prima alquímica é o Kitab al-Asrar (“O Livro dos Segredos”), mais tarde ampliado sob o título Sirr al-Asrar (“O Segredo dos Segredos”). Nessas obras, Al-Razi descreve de forma sistemática as substâncias, os instrumentos e os procedimentos da alquimia. Enumera e caracteriza as matérias-primas — abrangendo desde minerais e metais até plantas e produtos de origem animal — e descreve em detalhe o equipamento necessário para a experimentação química, como alambiques, foles e cadinhos. Fornece ainda procedimentos passo a passo para a realização das experiências, incluindo a preparação de compostos e reagentes. O Segredo dos Segredos, em particular, reuniu grande parte do seu trabalho anterior, tornando-se um guia abrangente de alquimia prática. Esses textos exerceram enorme influência: foram traduzidos para latim (sob o título Liber Secretorum) e amplamente difundidos entre os alquimistas posteriores. Outro tratado notável foi a sua refutação ao ceticismo de Al-Kindi em relação à alquimia. O filósofo Al-Kindi escrevera rejeitando a possibilidade de transmutação; Al-Razi, firme defensor do potencial da alquimia, respondeu com argumentos em defesa dessa arte. Infelizmente, apenas fragmentos dessa refutação sobreviveram através de citações posteriores. Apesar disso, o texto demonstra que Al-Razi se envolveu criticamente com as questões teóricas sobre a validade da alquimia, e não apenas com os seus aspetos operacionais.​

FILOSOFIA

Al-Razi foi também um filósofo original, embora grande parte dos seus escritos puramente filosóficos tenha sobrevivido apenas através de citações de autores posteriores. O seu pensamento era marcado por um forte racionalismo e por um espírito independente de investigação. Dedicou-se a questões de metafísica — como a natureza do universo e da alma —, de ética e de filosofia da religião. Em muitos aspetos, a filosofia de Al-Razi rompeu tanto com o pensamento islâmico influenciado pela Grécia do seu tempo como com a doutrina religiosa ortodoxa, o que o tornou uma figura controversa. Ainda assim, as suas ideias sobre a razão, a alma e a ética exerceram influência e evidenciam a amplitude do seu intelecto para além da medicina.​

METAFÍSICA

Influenciado claramente por Plotino e por outros autores platónicos em circulação entre os séculos IX e X, Al-Razi propôs uma ousada teoria cosmológica baseada em cinco princípios eternos e não criados: Deus, Alma, Matéria, Tempo e Espaço. De acordo com relatos da sua obra perdida sobre metafísica, argumentava que o cosmos, tal como o conhecemos, surgiu da interação dessas cinco realidades eternas. Nesse sistema, apenas Deus e a Alma são ativos e viventes, enquanto a Matéria é passiva, e o Tempo e o Espaço constituem contextos neutros. A explicação de Al-Razi para a criação constitui uma teodiceia singular — uma justificação da bondade divina apesar da existência do mal. Na sua conceção, a Alma, no seu estado primordial, desejou imprudentemente misturar-se com a Matéria, ansiando por uma existência corpórea. Esse ato impulsivo deu origem à criação do mundo — “a Alma concebe o desejo de se misturar com a matéria” — resultando num cosmos que contém tanto o bem (decorrente do desígnio de Deus) como um profundo sofrimento.

As imperfeições e os sofrimentos da vida são, portanto, explicados como consequências do erro da Alma ao misturar-se com a Matéria, e não como falhas de Deus. Al-Razi utilizou a analogia de um pai sábio que permite que o filho imprudente aprenda com os próprios erros para ilustrar a razão pela qual Deus permitiu que tal acontecesse. Deus concedeu ainda à Alma o dom do intelecto (‘aql), que representa a capacidade humana de raciocínio, servindo como guia para que ela reconheça o seu erro e procure libertar-se da matéria. Esta cosmologia era radicalmente diferente da visão islâmica ortodoxa da criação a partir do nada.

Do mesmo modo, afirmava que o tempo e o espaço não poderiam ter sido criados, uma vez que qualquer criação deve necessariamente ocorrer dentro do tempo e num lugar. Essas ideias colocaram-no em desacordo com outros filósofos islâmicos seguidores de Aristóteles. Pensadores posteriores, como Al-Biruni e Fakhr al-Din al-Razi (sem relação de parentesco), criticaram a doutrina dos cinco eternos como herética. Ainda assim, o pluralismo cosmológico de Al-Razi representava uma tentativa notavelmente original de reconciliar a existência do mal com a criação de um Deus benévolo, evidenciando o seu compromisso em seguir a razão onde quer que ela o conduzisse — mesmo em oposição ao consenso teológico.

Talvez o aspeto mais controverso da filosofia de Al-Razi tenha sido a sua posição sobre a religião e a profecia. Mantinha uma visão incomumente crítica da religião revelada, defendendo a primazia da razão sobre a fé cega. Segundo o seu oponente Abu Hatim al-Razi, designado para debater a sua falta de ortodoxia, Al-Razi chegou a questionar a necessidade de profetas.

O seu argumento baseava-se na ideia de que Deus concedeu a todos os seres humanos a faculdade da razão (‘aql) para discernir a verdade e a moralidade; por conseguinte, seria injusto e irracional que Deus escolhesse apenas certos indivíduos (profetas) para receber o conhecimento divino. Se a orientação espiritual é realmente importante para todos, Deus tê-la-ia tornado acessível a cada pessoa através da razão, e não apenas por meio de um pequeno número de profetas — um processo que, de facto, conduziu a conflitos e cismas entre os seus seguidores. Al-Razi equiparava a aceitação cega da doutrina religiosa com base na autoridade (taqlid) a uma forma de preguiça intelectual — uma perspetiva particularmente perigosa, que acabou por levá-lo a ser perseguido.

Defendia que cada indivíduo deve utilizar o raciocínio independente para determinar as suas crenças e objetivos. Segundo registos, rejeitava também certos conceitos religiosos específicos, como as narrativas de milagres das escrituras e as descrições antropomórficas de Deus, considerando-as filosoficamente problemáticas. Essas opiniões, se fielmente relatadas, foram vistas como escandalosamente heréticas por muitos dos seus contemporâneos. Alguns biógrafos posteriores, envergonhados por tal irreligiosidade, afirmaram que essas declarações teriam sido falsificações inventadas pelos seus inimigos. No entanto, a coerência dessa crítica com a exaltação geral da razão em toda a obra de Al-Razi dá credibilidade a esses relatos. Tal postura harmoniza-se com a sua visão médica — que privilegiava a investigação pessoal em detrimento da aceitação passiva das autoridades, como Galeno — e constitui mais um exemplo da sua independência intelectual. Em suma, Al-Razi estendeu o seu racionalismo ao domínio da religião: foi um espírito livre, que valorizava a compreensão racional individual acima da tradição ou da autoridade em todas as áreas do conhecimento.

Devido à destruição promovida pelas autoridades islâmicas, a maioria dos escritos filosóficos de Al-Razi perdeu-se, embora alguns tenham sobrevivido ou sejam conhecidos pelos seus títulos e resumos:

Medicina Espiritual foi uma das suas obras, na qual estabelecia paralelos entre a medicina e a ética. Al-Razi oferece orientações para a “cura” do carácter da alma e para o cultivo da virtude, tal como um médico trata o corpo. Discute a moderação das emoções, o treino dos hábitos e o uso da razão para superar as perturbações psicológicas. Esta obra fornece uma visão profunda da filosofia moral de Al-Razi e terá sido provavelmente escrita para um público mais amplo, com o objetivo de incentivar uma vida virtuosa.

O Modo de Vida Filosófico foi uma obra polémica em defesa da filosofia como o melhor guia para a vida. Foi escrita como resposta aos críticos — como Abu Hatim — que atacaram as ideias de Al-Razi. Nela, Al-Razi explica e justifica o seu compromisso com a razão e com a ética filosófica. Esclarece também mal-entendidos acerca da sua cosmologia e das suas posições religiosas, argumentando que uma vida guiada pela razão filosófica está em harmonia com a vontade de Deus (tal como ele a compreendia). Atualmente, esse texto sobrevive apenas de forma fragmentária, mas o seu conteúdo é conhecido através de citações em obras de outros autores. Nele, Al-Razi defende que a vida do filósofo é superior a outros modos de vida, comparando os benefícios duradouros da sabedoria com as gratificações imediatas da indulgência sensual. É provável que tenha respondido às acusações de impiedade explicando como a sua filosofia era compatível com uma compreensão genuína — ainda que não tradicional — de Deus e da piedade.​

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Sobre os Cinco Eternos foi outra obra postulada, frequentemente mencionada mas sem título confirmado. Tratava-se do tratado de Al-Razi sobre metafísica, no qual expunha a doutrina dos cinco princípios eternos. Embora o texto original se tenha perdido, o seu conteúdo pôde ser reconstruído a partir de críticas posteriores. Nesta obra, Al-Razi teria detalhado o seu raciocínio ao postular a coeternidade da Matéria, da Alma, do Tempo e do Espaço juntamente com Deus, desenvolvendo a sua narrativa da criação e da queda da Alma. É provável que a obra se inspirasse em ideias platónicas — como a preexistência da alma e do mundo material —, embora apresentadas de forma original e inovadora.

As ideias arrojadas aí expostas tornaram esta uma das suas contribuições mais célebres (e também mais controversas) para a filosofia. Fi Mahiyyat al-‘Aql (Sobre a Natureza do Intelecto) e Fi’l-Nubuwwat (Sobre a Profecia) foram as obras mais polémicas e, ao que tudo indica, aquelas pelas quais acabou por ser perseguido. Esses títulos aparecem em bibliografias e podem corresponder a textos em que Al-Razi discutiu a epistemologia e a profecia. Nesses tratados, teria articulado a sua tese de que o intelecto é o maior dom concedido ao ser humano e a fonte última de conhecimento e orientação, atenuando ou refutando a necessidade da revelação profética. Embora essas obras não tenham sobrevivido, os seus temas são preservados através dos relatos dos debates em que participou e dos Provas da Profecia escritas contra ele por Abu Hatim.

Pessoas de inteligência medíocre continuam a afirmar que Al-Razi, apesar de negarem a profecia islâmica e a própria natureza da religião abraâmica como um todo, e apesar de ele ter sido perseguido pelas suas crenças, era ‘muçulmano’. Isto evidencia a ausência de qualquer rigor no estudo histórico e uma postura de submissão face ao Islão, bem como a tentativa cínica, por parte de muçulmanos, de apropriar figuras que, de outro modo, considerariam ‘heréticas’.

Ao longo de toda a sua atividade filosófica, Al-Razi defendeu a razão, a integridade ética e a procura da verdade. Levou o seu espírito crítico e inquisitivo da medicina para a filosofia, nunca hesitando em discordar quando acreditava que a lógica e a evidência estavam do seu lado. Esse brilhantismo heterodoxo garantiu-lhe um lugar entre os pensadores mais controversos e originais do seu tempo. Embora os estudiosos posteriores nem sempre tenham aceite as suas ideias mais radicais, levaram-nas a sério, o que, por si só, impulsionou o progresso intelectual. Os escritos filosóficos de Al-Razi, especialmente sobre ética e razão, ecoam nas obras de filósofos islâmicos posteriores e até antecipam alguns traços do livre-pensamento da Europa da primeira modernidade.​

CONCLUSÃO

As obras escritas de Rhazes foram de um valor científico incalculável e exerceram uma influência duradoura. Os seus textos médicos tornaram-se referências padrão tanto no Ocidente como no Oriente; os seus manuais de alquimia orientaram gerações de experimentadores; e as suas ideias filosóficas continuaram a suscitar debate muito depois da sua morte. Em suma, as descobertas de Abu Bakr al-Razi e a sua excelência nos domínios da medicina, da química e da filosofia fazem dele um dos grandes contribuintes para o conhecimento humano — um erudito que aliou um saber enciclopédico a um brilhantismo experimental, e um médico-filósofo humanista dedicado a melhorar a vida através da ciência e da razão.​


BIBLIOGRAFIA

“Abu Bakr Muhammad Ibn Zakariya Al Razi (Rhazes): Philosopher, Physician and Alchemist”, Samir S. Amr and Abdulghani Tbakhi, Annals of Saudi Medicine

1. H. D. Modanlou, Archives of Iranian Medicine 2008 – “A tribute to Zakariya Razi… an Iranian pioneer scholar.”

Abu Bakr al-Razi” (P. Adamson, Stanford Encyclopedia of Philosophy

“al-Razi… Recognized the need for an untreated control”, James Lind

“Rhazes’ Contributions to Alchemy and Pharmacy.”, Shiraz Medical Journal

Islamic Alchemists: Jabir and al-Razi, Tanner Sorensen


CRÉDITO

[TG] Karnonnos
 
JACQUES DE MOLAY
Grão-Mestre

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Jacques de Molay foi o Grão-Mestre dos Cavaleiros Templários, uma das figuras mais enigmáticas da história, que procurou abalar a ordem medieval. O seu poder depressa atraiu a inimizade do Papa e do rei de França, que, de forma infame, o levaram a julgamento e o mandaram queimar na fogueira.



O TEMPLO

O nome completo da Ordem dos Templários era “Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão” (Pauperes commilitones Christi Templique Salomonici); de forma informal, a sua organização era por isso conhecida como o Templo e os seus membros como Templários.

Após o anúncio da Primeira Cruzada, Jerusalém foi conquistada pelos Cruzados em 1099 e transformada num reino de colonos europeus, muçulmanos, judeus, drusos e cristãos árabes, todos com sistemas jurídicos distintos e modos de vida bastante separados — uma situação em certa medida já paralela à da Hispânia islâmica. Outros Estados foram criados na região, conhecidos coletivamente como Outremer. Segundo a tradição, um cavaleiro chamado Hugues de Payens pediu autorização ao rei Balduíno de Jerusalém para fundar uma Ordem destinada a proteger os peregrinos, que eram frequentemente atacados por bandos de muçulmanos, e a defender o Reino contra o Califado do Egito, a sul, e os Seljúcidas, a norte.

A Ordem recém-criada estabeleceu a sua sede no Monte do Templo, num palácio situado na zona da mesquita de al-Aqsa e, supostamente, sobre o local onde se encontraria o “templo” bíblico de Salomão, o que conferia ao Templo, enquanto instituição, uma aura bastante mística. Era uma ordem militar composta por cavaleiros, sargentos e outros combatentes, à exceção dos capelães, que, por voto, estavam proibidos de derramar sangue. Tal como nas restantes ordens militares, os demais membros faziam votos de temperança e castidade, mas eram livres para se empenhar na guerra e nas artes marciais.

Criaram uma rede de casas e encomendas por toda a Europa Ocidental e eram obrigados a destinar um terço dos seus rendimentos à causa cruzada, tanto no Levante como na Hispânia, o que tornava necessário construir uma infraestrutura de finanças internacionais. Os Templários não eram a única ordem militar: os Hospitalários, a Ordem de São Lázaro, os Cavaleiros Teutónicos e a Ordem de São Tomé de Acre surgiram na sua esteira.

O século XIII foi um período de rápida expansão e crescente complexidade urbana na Europa. Nesse contexto, a conduta da Ordem era tida como irrepreensível, e a sua reputação de gerir fundos de forma até então invulgarmente responsável contribuiu para a sua aura lendária entre o povo, o que fez com que o crescimento da organização em todos os setores financeiros da Europa, bem como a quantidade de terras que começou a acumular, fosse sem precedentes. Em particular, mantinham laços estreitos com as classes médias em ascensão, que finalmente começavam a recuperar do desastre provocado pela queda do antigo império.

Colocaram-se ao serviço do rei de França, de cujos conselheiros financeiros muitos provinham das suas fileiras, chegando mesmo, cada vez mais, a fornecer serventes para a própria casa do Papa. Com base nessa combinação de doações e atividades comerciais, os Templários tornaram-se proprietários de Chipre e adquiriram vastas extensões de terras. Compraram e administraram vinhas e explorações agrícolas lucrativas, receberam ou mandaram erguer imponentes catedrais e castelos de pedra; envolviam-se na manufatura, na importação e exportação, com corporações de ofício sob a sua supervisão, e dispunham da sua própria marinha. Por tudo isto, a Ordem pode, provavelmente, ser considerada a primeira corporação multinacional do mundo desde a Antiguidade.

Em contraste, muitas Cruzadas foram proclamadas ao longo do século XIII e todas acabaram por se estagnar. Jerusalém foi reconquistada em 1187 pelo grande governante do Egito, Saladino. Apesar de desejarem recuperar a cidade, as monarquias europeias — enfraquecidas pela usura — mostraram-se em grande medida relutantes em enviar dinheiro para os reinos e cidades-Estado cruzados. As querelas entre monarcas e aristocratas arruinaram cada vez mais a “causa” cruzada, como se viu na fracassada cruzada de Frederico I Barba-Ruiva, bem como na expedição, mais bem-sucedida mas ainda assim falhada, do seu filho Frederico II. Pela metade do século, não conseguiram tirar partido da invasão mongol dos impérios islâmicos, que os tinha mergulhado no caos.

Mesmo antes de De Molay se juntar à Ordem, os Templários já manifestavam, em certos assuntos, uma tendência cada vez mais independente e intransigente, que começou a abrir fissuras graves nas relações com as monarquias europeias. Em períodos de conflito e falta de coordenação, alguns comandantes templários seguiam a sua própria agenda, conquistando ou negociando terras muçulmanas. Foi o caso de Renaud de Vichiers, o Grão-Mestre, que tinha alcançado um importante acordo com o sultão de Damasco para explorar uma vasta região agrícola, o que provocou a ira de Luís IX, que o forçou a voltar atrás na sua palavra e a expulsar o Marechal do Templo responsável pelas negociações de todos os territórios sob domínio francês.
O Último Templário: a Tragédia de Jacques de Molay, Último Grão-Mestre do Templo, Alain Demurger³

A organização da Ordem era simultaneamente hierárquica e descentralizada. Existiam três níveis. No topo, a direção da Ordem era exercida por um Mestre, Grão-Mestre ou Mestre-Geral, eleito vitaliciamente. Era assistido por dignitários com funções específicas, nomeadamente o Marechal (chefe em tempo de guerra), o Grande Comendador — que, nesse período, continuava a ser o Tesoureiro da Ordem —, o Drapel (encarregado dos mantos e vestuário) e o Turcopoleiro (que comandava os turcopolos, tropas auxiliares de arqueiros montados que formavam uma cavalaria ligeira e combatiam “à maneira turca”). Por fim, havia os homens prudentes e respeitáveis (prud'hommes), associados do Mestre (socius, socii), que formavam um pequeno conselho.​

A outra questão é que uma parte significativa da liderança templária tinha passado a procurar aproximar-se dos deuses através do “lado negro”.​


PRIMEIROS ANOS DA VIDA

Jacques de Molay nasceu em 1242, em Molay, Haute-Saône. Esta região situava-se no Condado da Borgonha, um território que pertencia ao Sacro Império Romano sob o imperador Frederico II.

Tal como a maioria dos cavaleiros templários, Molay nasceu numa família de nobreza de médio escalão. Este estatuto social era típico dos que ingressavam nas ordens militares durante as Cruzadas, pois a admissão exigia um certo nível de berço, sem no entanto demandar a mais alta linhagem aristocrática. A modesta nobreza da sua família proporcionou-lhe a educação básica e o treino marcial expectáveis de um cavaleiro.

Embora não fizesse parte da França, a Borgonha estava imersa em grande atividade, pois a violenta Cruzada Albigense contra os cátaros heréticos só havia ocorrido algumas décadas antes, e muitos cavaleiros e inquisidores tinham atravessado o país. Assim como aconteceria mais tarde, o Reino de França vizinho lucrou generosamente com a perseguição aos cátaros e colaborou com a Inquisição Papal.

Em 1265, ainda jovem, Molay deu o passo decisivo de ingressar nos Cavaleiros Templários — a sua visão filosófica e as suas capacidades marciais tinham sido observadas de longe. A sua receção estranhamente prestigiada na Ordem realizou-se numa capela da Casa de Beaune, onde foi iniciado por Humbert de Pairaud, que ocupava o prestigiado cargo de Visitador da França e da Inglaterra, e outro templário proeminente presente na cerimónia foi Amaury de la Roche, Mestre Templário da província da França. A iniciação marcou o início do compromisso vitalício de Molay com a Ordem, que terminaria com a sua morte conturbada.​

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Capela da comenda de Beaune, onde De Molay foi ordenado​

Por volta de 1270, cerca de cinco anos após ingressar nos Templários, De Molay viajou para o Levante. A viagem levou-o aos Estados Cruzados no Levante, onde os Cavaleiros Templários estavam posicionados para auxiliar as Cruzadas. Pouco se registou das suas atividades nos vinte anos seguintes. Essa lacuna de duas décadas nos registos históricos reflete o facto de grande parte das circunstâncias da sua vida ter sido apagada pelos Inquisidores.


Boccaccio oferece uma visão sobre a sua vida:
Sobre os Destinos dos Homens Famosos, Giovanni Boccaccio

Enquanto assim escorregavam da virtude para o declínio, havia Jaime (Jacques), de quem falaremos, burgundiano de origem e nascido dos senhores de Molay, um jovem de grande espírito. Quando, pela lei francesa, todas as dignidades da sua terra natal passaram para o seu irmão primogénito, ficou pobre; decidido a livrar-se do jugo do irmão, agora no poder, para um dia poder ascender a maiores coisas, refugiou-se no asilo já preparado — ou seja, a cavalaria dos Templários.

Nesta Ordem, após ter ocupado durante muito tempo o cargo de preceptor de um priorado muito rico, perseverou, e à morte do mestre, pela intervenção de príncipes, foi elevado pelos que tinham autoridade ao cargo de mestre; e então, de facto, brilhou como um não pequeno emblema do esplendor terreno. Quando se encontrava numa posição tão deslumbrante, a Fortuna decretou saciar a inveja de muitos com a queda desse homem; e aconteceu que incorreu na ira de Filipe, rei dos franceses, de cujo filho fora padrinho no batismo — e acreditava-se que esse mesmo Filipe, por ganância, conspirara não só contra ele, mas contra toda a Ordem militar.​

Embora De Molay fosse um grande e valente comandante — algo que nem mesmo os seus perseguidores conseguiam negar —, grande parte do seu tempo nesse período foi dedicado à recolha de informações. Desejava transformar a Ordem numa instituição independente dedicada à melhoria cívica e ao livre-pensamento. O pretexto que tinha era a persistente incompetência dos governantes encarregados das Cruzadas.

Durante esses anos, Molay testemunhou o declínio gradual do poder cruzado na Terra Santa sob o grão-mestre Beaujau, incluindo a perda de vários pontos fortes para as forças muçulmanas. Essas experiências moldariam a sua visão do mundo e as suas estratégias posteriores enquanto Grão-Mestre, em particular a sua determinação em reformar a Ordem como uma entidade independente e as suas tentativas persistentes de coordenar esforços com as forças mongóis para reconquistar territórios perdidos.

Ainda assim, em 1285, De Molay tornara-se Mestre da Ordem em Paris, uma distinção deveras significativa.

Os Templários, juntamente com as outras ordens monásticas, foram completamente derrotados em 1291 pelas forças do Egito, o que provocou um colapso quase total da sua autoridade na região, a rendição das cidades de Tiro, Sidon e Acre, e um pânico generalizado entre os civis que abandonavam a zona. Grande parte da liderança foi dizimada. Quando Molay emergiu para o centro das atenções históricas, após a catastrófica queda de Acre nas mãos dos mamelucos egípcios, já era um templário experiente posicionado para aspirar ao mais alto cargo na Ordem.​



LÍDER DOS TEMPLÁRIOS

De Molay era já Mestre do Templo a 20 de abril de 1292, conforme consta nos arquivos aragoneses. Como certos castelos em Chipre permaneciam sob o controlo da Ordem Templária, dedicou-se à missão de auxiliar o Reino de Chipre e o próximo Reino Arménio da Cilícia, localizado no atual sudeste da Turquia e norte da Síria. No entanto, isso era continuamente frustrado pelas guerras intestinas entre Veneza, Génova e Pisa. Embora os Templários apoiassem Pisa, os outros dois Estados italianos travavam combates constantes que também colocavam em risco o reino arménio.

Durante grande parte de 1292, De Molay residiu no Reino de Aragão, onde ajudou o povo de uma província a reduzir uma multa massiva que o rei lhes havia imposto. Em 1293³, viajou para Inglaterra, onde participou na iniciação de um membro e se fez apresentar ao rei Eduardo I para auxiliar o Mestre da Inglaterra, Guy de Forest. Tomou posse do mosteiro no mosteiro beneditino de Torre e interveio também no Reino da Sicília, persuadindo o rei Carlos II a cessar o assédio às embarcações templárias que entravam no reino. No ano seguinte, dirigiu-se a Roma para assistir à coroação do Papa Bonifácio VIII. O Papa tinha uma atitude mundana e belicista.

O propósito dessa expedição ao Ocidente era reabilitar a imagem da Ordem após o desastre de Acre³, consolidar os ganhos que o Templo havia obtido na Europa Ocidental, libertar o comércio para Chipre e angariar fundos suficientes para uma grande expedição ao Outremer.⁶ O acesso que De Molay tinha às realezas demonstra os níveis incríveis de poder de que a organização dispunha.

Em privado, De Molay consultara muitas das obras que os Templários haviam obtido há muito em Jerusalém e nas bibliotecas de Al-Aqsa. “Hereges” cátaros do sul de França haviam ingressado na organização havia décadas. Colaborações privadas com eruditos locais permitiram traduções do siríaco e do grego de textos há muito esquecidos, antes mesmo do Renascimento, embora esses não tenham sido tornados públicos. Para além disso, agora dispunha de ligações diretas em Roma.

Os Templários nesse círculo elevado veneravam a tríade de Zeus, Afrodite e Apolo, expressa em formulações como “IOANNES”. Recebiam informações de seitas islâmicas heréticas através de correspondência. Ademais, obtiveram conhecimentos sobre os pitagóricos e as suas práticas, e o próprio De Molay procurou reviver o culto da virtude na Europa. Apresento como evidência subtil o facto de De Molay ser conhecido por seguir princípios pitagóricos rigorosos; por exemplo, sabe-se que proibiu sacrifícios de animais exceto para sustento, tema que foi amplamente discutido em reuniões templárias, segundo o testemunho de testemunhas.⁴ Nas corporações de ofício, incentivaram um tipo semelhante de misticismo conhecido como maçonaria.​


CHIPRE

De Molay regressou a Chipre sob o reinado de Luís II, onde se viu encorajado pelo ataque ao Egito perpetrado pelo Ilcanato mongol sob o cã Ghazan, mas continuou a enfrentar problemas com a Ordem dos Hospitalários — em rivalidade com os Templários —, bem como com as interferências de Veneza e Génova.
Crónica do Templário de Tiro

No dito ano [1300], chegou a Chipre um mensageiro de Ghazan, rei dos tártaros, dizendo que Ghazan viria nesse inverno e desejava que o rei e todos os francos se dirigissem à Arménia para aguardar a sua chegada, pelo que o rei e o seu povo preparavam-se para isso.​

Em antecipação desse acontecimento, muitos Templários dirigiram-se a Chipre para a nova ofensiva. A estratégia passava por invadir e estabelecer uma cabeça-de-ponte em Ruad, a única ilha ao largo da costa da Palestina. No entanto, Ghazan não apareceu nem em 1300 nem no ano seguinte, em 1301. A invasão egípcia da ilha acabou por causar outro fiasco para a Ordem, não ajudado pela relutância de Veneza e Génova em intervir e interromper o comércio das especiarias.

Os Templários começaram também a enfrentar problemas em Chipre, onde a Ordem dos Hospitalários era favorecida pelo rei — embora ele também procurasse confiscar propriedades a ambas. Isso levou os Hospitalários a conquistar Rodes, enquanto De Molay negociava com cautela apelando ao Papa. Em 1306, partiu de Chipre.​


FILIPE IV

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Filipe IV, Rei de França​


Filipe IV, conhecido como o Belo ou “Lado de Ferro”, foi rei de França. Era um governante inflexível e rígido, determinado a reforçar o poder da sua casa real por todos os meios possíveis. Nesse intento, teve sucesso parcial: os seus parentes foram instalados nos poderosos tronos da Hungria e de Nápoles. Decidido a seguir o exemplo do seu antepassado Carlomagno e a ter acesso direto ao Papa, encontrou nas ambições mundanas de Bonifácio VIII um grande obstáculo. Para esse fim, lançou uma invasão em larga escala a Itália, afastando e sequestrando o Papa Bonifácio. A Casa dos Capetos parecia seguir uma trajetória imperial.

Após a conturbada morte de Bonifácio algum tempo depois, o rei instalou rapidamente o igualmente rígido Papa Clemente V, um francês que se tornou seu próximo colaborador e se dizia ter assinado um juramento para atender às suas exigências. A procissão do novo Papa Clemente em 1305 atraiu grande pompa em França, mas a cerimónia foi marcada por um enorme bloco de pedra que caiu de uma muralha e esmagou o Duque da Bretanha até à morte.

Outros aspectos do governo de Filipe começavam a revelar fissuras. Guerras custosas com Inglaterra e o tamanho cada vez mais inchado da burocracia estatal francesa começaram a esgotar a paciência do rei. Primeiro, em 1291, Filipe expulsou os italianos do Norte em bloco, incluindo muitos usurários e famílias bancárias, de França. Depois tentou expropriar propriedades das imensas posses da Igreja, prendendo cardeais ‘heréticos’ em Paris. Na década de 1300, com a usura agora nas mãos dos judeus — como em todos os Estados cristãos e ainda mais centralizada devido à ausência dos italianos —, este desenvolvimento incapacitou o rei de reformar qualquer aspeto das finanças.

Em 22 de julho de 1306, Filipe assinou uma bula real expulsando os judeus de França. Com a sua partida sem transição adequada, a capacidade de obter empréstimos evaporou-se e o capital dos agentes contemporâneos foi destruído. A insistência de Filipe em pagar aos judeus um salário de uma semana individualmente em moedas em troca das suas propriedades, para partirem em paz, lançou o Estado francês num caos económico. O Vaticano também protestou amargamente contra o tratamento dos judeus.

Com base nos insultos trocados entre os seus antepassados e os Grandes Mestres, Filipe já nutria ódio pela Ordem dos Templários. Formou-se-lhe uma ideia na cabeça: concebeu que tomar conta dos seus consideráveis bens ricos resolveria muitos dos seus problemas. O rei de França também notou que a Ordem dos Templários começava a adotar características físicas da heresia cátara que o seu piedoso avô Luís IX havia exterminado, e como cristão devoto começou a tramar.

Clemente V tinha a sua própria agenda. Os Templários eram um bode expiatório conveniente tanto para o fracasso do projeto cruzado como para os tumultuosos problemas com o Papado, que o Papa lutava por controlar, dado o seu perennial estado de doença. Embora a Igreja fosse o maior proprietário de terras da Terra (um título que ainda detém), as tensões em Itália haviam causado rutura e humilhação. Clemente foi também informado pelos seus superiores de que as atividades financeiras do Templo eram um obstáculo aos seus objetivos na sociedade medieval, e que era necessário detê-las a todo o custo.

Inicialmente, isto disfarçou-se de persuasão. Quando De Molay chegou a França no final de 1306, foi convocado para uma audiência juntamente com o Mestre dos Hospitalários. O novo Papa Clemente exigiu que a Ordem dos Hospitalários e os Cavaleiros Templários se fundissem numa única Ordem. Exigiu também que ambos os líderes submetessem um memorando sobre como invadir o Levante; secretamente, Clemente escolheu a visão dos Hospitalários e implementou-a mais tarde. As negociações para a união foram infrutíferas, e De Molay partiu por meses, regressando em dezembro de 1306.

Uma maior inflamação das relações ocorreu quando se disse que De Molay impediu o Tesoureiro do Templo de emprestar ao rei 400 mil florins, excomungando-o da Ordem e lançando-o para a órbita de Filipe IV, o que foi logo seguido por uma exigência do Papa para reintegrar o Tesoureiro. De Molay recusou-se.

Na madrugada de sexta-feira, 13 de outubro de 1307 (durante o Sucot), o rei Filipe IV mandou prender De Molay e centenas de outros Templários franceses simultaneamente, com a assistência da Igreja Católica. O mandado de prisão, habitualmente preparado, começava com:​

Dieu n'est pas content, nous avons des ennemis de la foi dans le Royaume.
Deus não está satisfeito, temos inimigos da fé no reino.​


INQUISIÇÃO

Pelos Inquisidores, os Templários foram submetidos a torturas extremas e horrores degradantes. Os lacaios de Filipe prepararam uma lista de acusações de que eram culpados, incluindo sodomia, relações sexuais com demónios, adoração de uma cabeça humana com barba e uma corda, entrega a todo o tipo de luxúrias, não consagração da hóstia durante a missa católica, e beijo nu por um homem em três partes do corpo como rito de iniciação.

Ainda assim, a única acusação a que De Molay confessou sob esta extrema coação foi a de negar Cristo e pisar a cruz. Sob este pretexto, Clemente V assinou um mandado de prisão para todos os Templários que viviam no Reino de França.

Foi arrastado à frente do Papa, onde recantou as acusações feitas, e depois em Chinon à frente dos cardeais um ano mais tarde, afirmou a validade da acusação original de que pisar o Nazareno era o primeiro rito para ingressar nos escalões superiores da Ordem.

O julgamento francês inicial e mais significativo teve lugar em Paris, de 19 de outubro a 24 de novembro de 1307, às pressas. Dos 138 prisioneiros que prestaram depoimentos completos, quase todos confessaram pelo menos uma acusação de forma incoerente. O uso de tortura foi atestado durante os interrogatórios. Estranhamente, estas admissões iniciais de culpa entravam em conflito com o depoimento subsequente dado perante as comissões papais em Paris em 1310.

Uma bula papal de 1308 confirmou 88 acusações específicas. O Papa Clemente estabeleceu um sistema de dupla acusação através da bula papal Faciens misericordiam: uma comissão para julgar Templários individuais e outra para julgar o destino da própria Ordem. Embora um concílio ecuménico tenha sido convocado para se reunir em Vienne em 1310 para determinar o destino da Ordem, o Papa reservava para si o julgamento da liderança dos Templários, incluindo Molay. Durante este período, Clemente foi atormentado por maus presságios e escreveu temerosamente uma carta de remissão conhecida como o Pergaminho de Chinon, que parece ter sido arquivado nos arquivos do Vaticano e nunca divulgado. Enquanto isso, Margarida Porete, outra mística, foi condenada à morte, e a ordem das freiras Beguinas também foi violentamente exterminada pela Inquisição.

Em maio de 1310, o Arcebispo de Sens, Philippe de Marigny, assumiu o julgamento dos Templários da comissão original. O Concílio de Vienne foi adiado até 1312, e quando finalmente se reuniu, o Templo foi suprimido no conjunto pela bula papal Vox in excelso. A ordem para queimar Jacques de Molay na fogueira não veio do seu inimigo direto Filipe IV, mas de um grupo de cardeais papais.

De Molay, juntamente com Geoffroi de Charney, preceptor da Normandia para os Templários, foi levado a uma ilha fora de Paris e queimado na fogueira. O continuador de Guillaume de Nangis, uma testemunha, atestou a sua bravura, assim como o cronista florentino Villani, que esteve presente. Segundo o poeta Geoffroi de Paris, que também testemunhou a execução:​

Crónica Métrica de Filipe o Belo, Geoffroi de Paris²

O mestre, que viu o fogo pronto,
Despiu-se sem sinal de medo.
E, como eu próprio vi, colocou-se
Completamente nu na sua camisa
Livremente e com bom aspeto;
Nunca tremeu
Por mais que o puxassem e empurrassem.
Levaram-no para o amarrar ao poste
E sem medo deixou que o amarrassem.
Amarraram-lhe as mãos com uma corda
Mas ele disse-lhes isto: ‘Senhores, pelo menos
Deixem-me juntar um pouco as mãos
E fazer uma oração a Deus
Pois agora o tempo é adequado.
Aqui vejo o meu julgamento
Quando a morte me convém livremente;
Deus sabe quem está errado e pecou.
Em breve a desgraça virá
A aqueles que nos condenaram injustamente:
Deus vingará a nossa morte.’
‘Senhores’, disse ele, ‘não se enganem.
Todos os que estão contra nós
Terão de sofrer por nossa causa.
Nessa crença desejo morrer.
Essa é a minha fé; e peço-vos.’

A Suma Sacerdotisa Maxine Dietrich afirmou que o infame Sudário de Turim provinha de facto de um sudário colocado sobre a cabeça de Jacques de Molay, enquanto o seu sangue e fluidos corporais se acumulavam devido às torturas7. O sudário foi exibido pela primeira vez numa aldeia fora de Paris, chamada Lirey, em 1355. A datação por carbono do Sudário indica que data de 1260–1390 d.C., e sabe-se por múltiplos testemunhos que itens pertencentes a Molay eram venerados como relíquias sagradas.​

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Sudário de Turim​


A violenta extermínio dos Templários teve consequências dramáticas e bastante feias. Primeiro, sob o pretexto de grande parte da corte papal em Roma ter ardido num misterioso incêndio, Clemente foi forçado a mudar-se permanentemente para Avignon, em França, criando uma situação em que o Papa residente em Avignon se tornou um refém político permanente do rei francês. A constante batalha entre os chamados Antipapas ali e os Papas que se reafirmavam em Itália tornou-se uma dramática fonte de conflito nos séculos XIV e XV. Muitos séculos depois, foi a intervenção francesa decisiva em Itália que pôs fim ao poder temporal do Papado.

Em segundo lugar, Clemente, persistentemente doente, morreu dentro de um ano, provando a profecia correta. Filipe de Marigny morreu dentro de ano e meio.

O rei de França, o aparentemente invencível ‘Filipe Lado de Ferro’, finalmente munido de ouro suficiente para se aventurar noutra Cruzada, morreu de um acidente vascular cerebral enquanto caçava. Os seus três filhos e irmão que o sucederam morreram todos dentro de quinze anos, pondo fim à Casa dos Capetos no conjunto e iniciando o reinado da Casa de Valois. O seu herdeiro direto, Luís X, convidou também imediatamente os judeus a regressarem a França em 1315. Em 1337, a Guerra dos Cem Anos explodiu, levando ao colapso do poder francês em 1380 face ao ataque das forças inglesas, e numerosos reis franceses depois disso enlouqueceram.​


LEGADO

O misterioso Jacques de Molay tornou-se uma figura lendária nos círculos maçónicos e rosacruzes. Embora os Templários tivessem sido dissolvidos, corria o rumor de que ele assegurou a sobrevivência das ordens ocultas a partir da sua cela prisional em França. O simbolismo da espada e do malhete perdurou na Europa, particularmente no Iluminismo, onde ganhou uma lenda própria.⁵​



BIBLIOGRAFIA

1 On the Fates of Famous Men, Giovanni Boccaccio

2 Metric Chronicles of Geoffroi of Paris

3 PRO, Royal Close Rolls of England, 54/III/m.i2

4 The Last Templar: the Tragedy of Jacques de Molay, Last Grand Master of the Temple, Alain Demurger

5 The New Knighthood: A History of the Order of the Temple, Malcolm Barber

6 The Knights Templar: The History & Myths of the Legendary Military Order, Sean Martin

7 ’Shroud of Turin’, reply of High Priestess Maxine Dietrich - https://ancient-forums.com/threads/shroud-of-turin.285354/#post-1054534

Entences y Templers en les Montanyes de Prades, F. Feyer & Candy, Bolletin de la real Academia de las Bellas Letras de Barcelona

The Templars in the Corona de Aragon, J. Forey

’Encore le proces des templiers. A propos d'un ouvrage recent', Alain Demurger, Le Moyen Age

The Templars, Piers Read

The Debate on the Trial of the Templars (1307–1314), Jochen Burgtorf; Paul F. Crawford & Helen Nicholson (eds.).


CRÉDITOS:


Karnonnos [SG]
 
MÃO ESQUERDA DE ALEXANDRE
HEFÉSTION
Autores: Thersthara, NP Karnonnos (informações ocultas extras)

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Heféstion é uma das figuras mais inesquecíveis da história da Grécia Antiga. Ele era o amigo mais próximo e o general mais confiável de Alexandre, o Grande, rei da Macedônia.

Este artigo explorará a vida de Heféstion do ponto de vista histórico: sua influência sobre Alexandre, o Grande, suas façanhas heróicas em batalha, a relação inspiradora entre os dois, a importância da lealdade e as lições que ele deixou para aqueles que seguem o mesmo caminho.

Nascido em 354 a.C., um ano e meio mais novo que Alexandre, Heféstion era membro da aristocracia macedônia. Quando jovem, ele foi educado ao lado do futuro rei como aluno do famoso filósofo Aristóteles na escola informal de Mieza.

Durante esse período, eles trabalharam juntos no pensamento filosófico e desenvolveram novas ideias de estratégia militar. Heféstion não era tão habilidoso no comando militar geral quanto Alexandre ou seu rival Craterus. No entanto, ele tinha profundo conhecimento de combate pessoal (incluindo táticas de choque, que ele empregou inúmeras vezes) e um senso extremamente avançado de logística. Essas qualidades o tornaram o candidato ideal para funções posteriores durante a campanha Persa.

Embora Heféstion tivesse um temperamento de certa notoriedade, ele também era amplamente simpático e gentil, características que o tornavam querido por Alexandre. O jovem frequentemente contava com Heféstion para fazer uso de conexões que seriam impróprias para o herdeiro do trono buscar tão abertamente. Embora pudesse ser brutal com os inimigos do rei, o caráter cruel comum na corte não estava presente nele.

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Estátuas votivas duplas de Alexandre (à direita) e Heféstion (à esquerda),
do século I, indicando que ambos eram venerados como heróis naquela época.

A estreita amizade entre os dois era alimentada não apenas pela solidariedade militar, mas também por um entendimento mútuo. Seu profundo afeto foi observado por muitos historiadores. Parte disso se devia ao fato de Heféstion possuir uma certa compreensão, ausente em outros macedônios, do motivo pelo qual Alexandre desejava dominar o mundo e deixar uma marca dramática na história. Essa percepção vinha, em parte, de seu conhecimento do ocultismo e de sua elevada mentalidade.

Os dois rapazes compartilhavam os ideais da Ilíada, especialmente a amizade exemplar entre Aquiles e Pátroclo, um paralelo que eles reforçaram várias vezes. Diodoro e Quinto Curcio Rufo indicam que Heféstion compreendia a importância de operar dentro de uma estrutura cultural heróica e criar um exemplo vivo da mitologia. Reforçando isso, Plutarco (15.2) relata que, ao desembarcar em Tróia, Alexandre colocou uma coroa de flores no túmulo de Aquiles, enquanto Heféstion colocou uma no túmulo de Pátroclo.




HABILIDADES MILITARES
Heféstion desempenhou um papel importante durante as conquistas de Alexandre, o Grande. Ele enfatizou a Alexandre a importância de manter os suprimentos e manter um exército bem estruturado e bem alimentado. Essa é uma das razões pelas quais o conquistador passou um tempo significativo reunindo recursos no Levante e no Egito antes de atacar diretamente o coração da Pérsia. Em muitas histórias sobre Alexandre, Heféstion não recebe crédito por esses fatores, pois não era particularmente ávido por glória, embora Arriano destaque sua competência e pragmatismo.

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Estátuas de Alexandre e Heféstion​

Na Batalha do Grânico, ele contribuiu muito para a vitória de Alexandre ao atacar corajosamente as linhas inimigas e causar confusão entre suas tropas. Ele também demonstrou liderança estratégica na Batalha de Issos, dispersando as forças inimigas.

No entanto, seu maior heroísmo veio durante a Batalha de Gaugamela, um ponto de virada na história de Alexandre. Heféstion planejou a complexa logística da travessia do rio Eufrates e atacou diretamente a fortaleza inimiga, permitindo que Alexandre realizasse sua estratégia mais ampla.



DIPLOMATA DA PÉRSIA

Após a conquista da Pérsia, Heféstion foi nomeado sátrapa (governador) das províncias orientais, incluindo a região vital da Babilônia. Suas funções administrativas incluíam supervisionar esses territórios e implementar as políticas de Alexandre, ajudando a estabilizar e integrar as diversas culturas dentro das terras conquistadas.

Heféstion atuou como um diplomata fundamental durante as campanhas de Alexandre, ajudando a manter relações com vários povos e tribos. Sua compreensão de diferentes culturas e idiomas, combinada com sua natureza flexível e simpática, contribuiu para os sucessos diplomáticos da campanha. Essas qualidades permitiram transições de poder mais suaves e um apoio mais amplo entre as populações recém-conquistadas.

Ele também esteve envolvido em grandes projetos de construção, particularmente na Babilônia. Ele acompanhou Alexandre na fundação de novas cidades, parte da visão deste último de misturar culturas e promover o comércio. O papel de Heféstion no planejamento urbano e na infraestrutura ajudou a moldar o ambiente desses novos assentamentos.

Ele não era apenas um grande guerreiro, mas também um líder que compartilhava os sonhos de Alexandre. A amizade entre os dois foi aprofundada pela confiança no campo de batalha. Heféstion se destacou como alguém que apoiava os ideais de Alexandre, ao mesmo tempo em que lhe incutia coragem. Para Heféstion, a vitória não era apenas uma conquista militar, mas a realização da visão de Alexandre. Sua lealdade e amor pelo amigo eram suas principais motivações, apesar das críticas ocasionais dos tradicionalistas que se opunham à incorporação dos costumes persas.

Na campanha de Alexandre para misturar elementos da cultura Iraniana, Heféstion emergiu como um apoiador de sua liderança, um homem que compreendia e encorajava a visão. Enquanto muitos Gregos, como Calístenes, criticavam Alexandre, Heféstion o defendia.

Eles lutaram lado a lado e conquistaram grandes vitórias. Mas essa relação transcendia a irmandade militar. Fontes antigas frequentemente descrevem a intensidade dramática de seu vínculo, incluindo episódios em que Alexandre colocou sua própria vida em perigo para salvar Heféstion. Isso ia além das expectativas da amizade masculina da época e ilustra o quão vital Heféstion era para Alexandre.

Sua presença era mais do que apoio moral. Como força estabilizadora e amigo de confiança, o papel de Heféstion significava tudo para o Rei dos Reis. O afeto do rei por ele se tornou a base dos Companheiros ou Guardiões, figuras que Alexandre esperava tornar eternas, como os heróis da Ilíada ou da Odisseia.




DESDOBRAMENTO E LEGADO

A doença repentina e a morte de Heféstion foram devastadoras para Alexandre. Não foi apenas a perda de um amigo, foi a perda de uma parte de sua alma. Alexandre construiu um grande monumento em sua memória e procurou que ele fosse lembrado como um Deus, um igual em divindade. Esse ato é prova de seu profundo afeto por seu companheiro mais próximo.

A morte de Heféstion afetou negativamente o estado mental de Alexandre. Ele se tornou cada vez mais retraído e menos acessível, como se seu foco tivesse se desviado dos assuntos mundanos e imperiais. A partir daquele momento, ele passou a se dedicar persistentemente a rituais para os Deuses, mudanças que também afetaram suas decisões militares.

O vínculo duradouro entre os dois revela a profunda importância da amizade e do amor na vida humana.

Uma das lições mais significativas que herdamos de seu relacionamento é o papel da lealdade em nossas vidas. A verdadeira amizade é um vínculo que permanece conosco nos momentos difíceis e nutre a alma. Sua saga de superar obstáculos impossíveis para conquistar a Pérsia mostra o poder do compromisso, da dedicação e da lealdade.

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Mural de Alexandre e Heféstion em Pella.
Heféstion recebe características visuais do Deus homônimo chamado Hefesto, como seu machado​

Em um mundo onde a vida, a amizade, as dificuldades e as perdas estão interligadas, lealdade significa manter nosso compromisso. Isso não apenas fortalece nossos laços com os outros, mas também eleva nosso espírito. A lealdade é uma virtude divina e sagrada.

A história de Heféstion e Alexandre é mais do que um conto histórico, é uma viagem às profundezas emocionais da humanidade. A relação entre eles revela o poder divino da lealdade e da bravura.

Esses são dois dos elementos mais significativos da vida e simbolizam a marca duradoura que os indivíduos deixam uns nos outros. O que aprendemos com a história deles nos ajuda a entender como a lealdade e a amizade moldam nossas vidas. E o mito deles oferece uma lição que vale a pena lembrar todos os dias:

Ao enfrentarmos os desafios da vida, a lealdade dos verdadeiros amigos é uma luz que ilumina nossas almas.





BIBLIOGRAFIA
Life of Alexander, Plutarch

Anabasis of Alexander, Arrian

Biblioteca Historica, Diodorus

Alexander Romance

With Alexander in India and Central Asia, Moving East and Back to West, various, edited by Claudia Antonetti, Paolo Biagi
 

Al Jilwah: Chapter IV

"It is my desire that all my followers unite in a bond of unity, lest those who are without prevail against them." - Shaitan

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